quinta-feira, 24 de outubro de 2013

[Silêncio e o Afonso na margem esquerda, hirto, calado, irreal, como um deus antigo], registo diarístico de Miguel Torga

O poeta Afonso Duarte 
(Fotografia retirada de http://filosofia-extravagante.blogspot.pt)
Coimbra, 9 de Outubro de 1938 – Dia de caça. De manhã nos montes e nas barrocas de Valcanosa; de tarde nos campos do Mondego, primeiro no automóvel por caminhos demoníacos, depois com o Afonso Duarte, nos arrozais, às codornizes. Mas a grande hora, a hora única do dia, foi o momento em que o meu companheiro, o Vasco, os cães, o automóvel e eu, de uma barcaça enorme, recebemos a bênção da lua cheia. Montemor ao longe, em terracota, sobre um renque de choupos. Um horizonte sem fim para onde o rio corria. A lua, vermelha como um balão minhoto, pendurada no céu. E aquela luz mediúnica a penetrar tudo e a projectar a realidade em transparência num ecrã distante. Nada que se possa figurar em palavras. Silêncio puro. Silêncio e o Afonso na margem esquerda, hirto, calado, irreal, como um deus antigo. Depois foi a chegada a terra, a largada, e a estrada cortada subitamente. Mas isto agora é outra história. Uma história das minhas, que mete pedra, terra, violência, pragas, força, e esta vontade telúrica que vive em mim como o coração.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

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