segunda-feira, 28 de outubro de 2013

[Ora quem é lá capaz de escrever o capítulo de um romance, de memória, num cenário destes?], registo diarístico de Miguel Torga

Foto retirada de bancadadirecta.blogspot.com
Sítio da Nazaré, 1 de Julho de 1940 – Aqui estou, sentado numa pedra, com o mar em frente e ao fundo, calmo. Cheguei ontem. Uma viagem horrível, de comboio, cheia de pó e de calor. Tinha a camioneta. Mas gosto de retomar de vez em quando o convívio com o caminho-de-ferro. Dão-me como que umas saudades ancestrais de tudo aquilo, desde a gare às carruagens e ao revisor. Aqueles ferros negros, igualmente húmidos e gordurosos por todo o mundo, aquelas faúlhas insistentes que penetram nos olhos, nos ouvidos, no sabugo das unhas e nas algibeiras, aqueles homens fardados, calmos e rotineiros, enchem-me de uma melancolia imbecil, mas gostosa.
Arrumada a mala, e logo que o comboio se pôs em andamento, puxei pelo meu Pascal. Les Provinciales. Mas li pouco. Comecei a pensar na ideia fantástica que o bom do jansenista teve das viagens colectivas. Pois não é realmente um achado isto de meter no mesmo carro trinta sujeitos que não se conhecem mutuamente, e fazê-los andar juntos durante quatro horas? E então se um desses indivíduos é aprendiz de violino e resolve estudar pelo caminho?!
Navegava nestas águas, e tirava as consequências respectivas, quando cheguei.
A tragédia de um quarto vazio. A tragédia de encher quatro paredes do sentido da nossa intimidade. Mas, afinal, bastou abrir a mala, espalhar pelas cadeiras o pijama e a gabardine, e pôr em cima da mesa a pasta dentífrica e o pente. Com mais um cobertor na cama e duas toalhas limpas, considerei-me aninhado. Um homem é pouca coisa. O tacão da bota ou a direcção da risca do cabelo podem resumi-lo.
Jantei e vim ver o velho oceano. Vim olhá-lo cá do alto. Este Sítio é na verdade uma varanda de eleição. O mar, contemplado dum mirante assim, tem uma perspectiva sem paralelo na costa portuguesa. A fundura que ele é na consciência de todos vê-se daqui quase ao natural. Àquela hora, carregado de luar como estava, a florir de segundo a segundo a sua angústia numas ondas imaculadas, era o coração do mundo a pulsar e a imensidade a sorrir.
Às onze e tal fui-me deitar. Dormi mal. Um sono inquieto, meu. E apenas as sete bateram, lá estava o senhor Sol e mandar-me cavar. Peguei no papel e vim. Mas creio bem que não posso trabalhar neste lugar. Trata-se de fazer seguir um romance que trago entre mãos. Ora quem é lá capaz de escrever o capítulo de um romance, de memória, num cenário destes? Um romance é um edifício austero, sólido, construído na solidão do escritório, a consultar fichas. Quando às vezes leio a qualquer amigo um capítulo do que já fiz, a impressão que me fica é a de que se julga que tudo aquilo eu o criei a mexer o dedo mindinho. Falo nos meus apontamentos, nas horas e horas de trabalho rijo, a ordenar e a mondar material acumulado, e é como se eu falasse da lua. Já nem me refiro à expressão, à poda beneditina aos adjectivos, às mil picuinhas que são na obra o que os pontos são num vestido. Para quê? Se não acreditam no principal!...
Mas acreditem ou não, a verdade é só uma. Um romance é uma história que tem de se contar com o suor, a seriedade e a segurança com que se conta a guerra das Duas Rosas. Ora eu, sentado neste trono de luz e de brisas, estou em condições de muita coisa, menos de descrever exactamente a morte de um senhor asmático que há-de morrer no meu romance. Ainda assim vou tentar. Mas não creio. A olhar o mar lá no fundo, calmo e verde como um jardim, o que me apetece é escrever destas maluqueiras, e pensar que há lugares onde os milagres têm que acontecer, quer Deus queira, quer não. Que se o D. Fuas Roupinho não tivesse vindo aqui dar o salto lendário, era o maior bandido que o sol cobria no seu tempo.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

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