segunda-feira, 28 de outubro de 2013

[Muitas águas que se juntaram...], registo diarístico de Miguel Torga

Foto retirada de mesozoico.wordpress.com  
Nazaré, 3 de Julho de 1940 – O mar...
Era uma coisa de que eu gostava: saber o que dele pensavam os homens portugueses de mil e tal. Possivelmente, que era extenso, medonho, e se interpunha entre uma costa e outra costa. O que não deixa de ser simples e verdadeiro. Mas, se iam além desta definição, que pensariam?
Hoje, de manhã, interroguei um pescador. O mar, que será isto? Respondeu-me textualmente: – Muitas águas que se juntaram... Ainda tentei descobrir por detrás deste positivismo qualquer reminiscência de lenda ou mito. Nada. O homem, que me levava de barco ao largo, remava, remava, e via em todo aquele fervilhar, em toda aquela inquietação – água apenas.
Eu, porém, é que já estou tão perdido que nem sou como os saveiros baianos, nem como os pescadores da Nazaré. E ponho-me então a sentir que, embora a terra seja ainda capaz de manter a vida, a parte do mundo onde ela nasce, e onde a ciência terá de ir procurá-la, se quiser surpreendê-la no seu primeiro alento, é nele.
Que o mar é em última análise o coração do mundo. Que pulsa, que geme, só por ser como o nosso: fonte e consciência biológica de tudo.

In «Diário» (1.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Dezembro de 1989 (7.ª edição).

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