quinta-feira, 20 de outubro de 2016

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA na visão crítica de Eduardo Pitta

Foto encontrada em http://www.snpcultura.org/

A mais recente colectânea de José Tolentino Mendonça (n. 1965), poeta e teólogo, abre com uma epígrafe da escritora católica norte-americana Flannery O’Connor, «O meu mal vem de mais longe», frase de origem não sinalizada, provavelmente extraída do volume de correspondência The Habit of Being (1978), organizado pela sua amiga Sally Fitzgerald. José Tolentino Mendonça dedica A Estrada Branca (2005) a Eugénio de Andrade. Como acontece com o poeta do Porto, também o autor de A Construção de Jesus goza do enfático succès d’estime. A coincidência do sagrado com o profano, simbiose tentadora, é uma das explicações possíveis desse reconhecimento. Agora tudo permanece ao rés da voz – também aqui um desejo de alteridade com o poeta de Ostinato Rigore –, móbil de comprometimento: «Clandestinos serão sempre os anjos de Iahwé // Enchem os primeiros autocarros para o centro / lêem o jornal de distribuição gratuita / à espera que de novo o mar se rasgue / num quarto sub-alugado da periferia / onde em vez de Corte Inglés e Continente os supermercados / se chamam Lidl ou Discount // É fácil detectar seu rosto transparente / pois pertence-lhes a solidão como um zumbido / imerso, inactual, impreciso […] uma espécie de fantasma / indivisível, muito para lá dos confins / embora o êxodo exija agora estrita documentação // Todos os textos conspiram contra a materialidade do corpo / por isso há quem acredite na sua ressurreição».
Alguns sinais davam conta do regresso da poesia portuguesa ao engagement político. Sinais menores, reciclando o pior do neo-realismo, fazendo de Bagdad uma nova Guernica e, desse modo canhestro, confundindo intervenção com poesia. O problema não está no empenho, mas no défice literário. Esses modos enviesados vêem-se muito ultimamente. O assunto vem à colação na medida em que José Tolentino Mendonça nos dá um livro comprometido, a tal ponto comprometido que o primeiro poema tem versos como estes: «O custo das casas / por incrível que pareça / sugere a possibilidade / de uma outra vida / a alma não mora debaixo do seu tempo […] os insignificantes flutuam / ao vento contínuo de Deus». A função social da Igreja, não raro subestimada, encontra aqui um acorde justo. E mesmo quando um poema hábil contrapõe estilistas (como Armani) a doutores da Igreja (como São João da Cruz), continua a ser no domínio das preocupações sociais que nos encontramos: «Regressamos a uma terra misteriosa / trazemos uma ferida / e o corpo ferido / imprevistamente nos volta […] para lá das nossas defesas».
Noutro registo, poemas como «O Esterco do Mundo», discreto envio à autora de Wise Blood; «A Destruição de Cartago», «Um Piquenique no Campo», «Santa Teresa e as Prostitutas», «Vidas Secretas», «Plumas», «A Senhora Blume» e «Via del Governo Vecchio» são do melhor que A Estrada Branca reúne. Exemplos de afirmação nítida do poema como «exercício de dissidência […] incredulidade […] apostasia». São esses os lugares do poeta.

In «Aula de Poesia», série de textos breves de Eduardo Pitta (com revisão de Carlos Pinheiro), Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2010 (1.ª edição).

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