quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CARLOS DE OLIVEIRA visto por Eduardo Pitta

Fotografia encontrada em http://www.notapositiva.com/
Vinte e seis anos depois de Trabalho Poético, e passados dez sobre a reunião de toda a obra, João Pedro Mésseder organizou uma antologia de Carlos de Oliveira (1921-1981). Nunca é demais insistir no autor de Micropaisagem. A esta recolha, Mésseder deu o título exdrúxulo de A Leve Têmpera do Vento. É sintomático da importância da obra de Oliveira o facto de a sua relativa escassez não inibir o regular aparecimento de trabalhos desta natureza. Estou a pensar nas antologias organizadas por Giulia Lanciani (1975), Manuel Gusmão (1981), Gastão Cruz (1995) e Osvaldo Manuel Silvestre (1996). Os nomes falam por si.
Relativamente à selecção de Mésseder, dois pontos prévios. Primeiro: quando se trata de Carlos de Oliveira, todo o rigor é pouco. Segundo: não é sem alguma curiosidade que avaliamos a parcimónia do antologiador relativamente a duas sequências centrais: Cantata (1960) e Pastoral (1977). É evidente que todo o antologiador tem direito à sua «controversa mas inelutável prerrogativa», neste caso pouco explicitada na nota final. Globalmente considerada, a selecção é generosa. Podemos começar pelo fim: «Porquê? um tal volume / de águas […] Para abrir / depois, saber / da chuva numerosa / que fulgor perdura […] Se caminham; / com a sua aura de água / opaca; oprimem / o horizonte. Ou param / para germinar. E então; / irreparavelmente; / absorve-os o crepúsculo.»
Filho de pais portugueses, Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, mas veio para Portugal com dois anos, fixando-se com a família na região da Gândara, onde o pai foi exercer medicina. Os primeiros textos datam da adolescência, época em que usou o pseudónimo Carlos Ganda para colaborar em jornais escolares. Mais tarde, já na Universidade de Coimbra, fez amizade com os neo-realistas, em particular Fernando Namora, que ilustrou a sua primeira colectânea, Turismo (1942), aparecida na colecção Novo Cancioneiro. Decerto não por acaso, a sua tese de licenciatura versará a estética realista. Quando em 1948 se muda para Lisboa, é autor de três colectâneas de poesia e três romances.
A notável sequência de poemas em prosa de Sobre o Lado Esquerdo (1968) influenciaria decisivamente alguns poetas mais novos – Luís Miguel Nava foi dos que melhor aproveitou a lição –, desse modo estabelecendo «uma relação dinâmica com outras [poéticas que] convergiram no sentido da renovação da poesia portuguesa no pós-neo-realismo e no pós-surrealismo.»
Testemunha privilegiada dos ominosos tempos da ditadura, Oliveira escolheu como seu o campo da esquerda, o desses «camponeses […] destinados às sepulturas rasas» cuja presença nunca beliscou a modernidade da escrita: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.»
Memória de «lagoas pantanosas, calcário e areia», a sua obra ilustra o «fulgor / das veias fatigadas / subindo à pedra», as «casas desidratadas / no alto forno», dois exemplos nítidos, entre outros, daquele tipo de imagem que atravessa o magma escasso (mas impressivo) do universo do autor. O processo de revisão da obra começou em 1962, quando reuniu em Poesias todas as colectâneas menos uma – Turismo ficou de fora –, e atinge mais alto conseguimento em 1976, o ano de Trabalho Poético, que recupera Turismo (em nova versão) e acrescenta dez inéditos.
À data da sua morte, 1 de Julho de 1981, talvez fosse mais conhecido como autor de Uma Abelha na Chuva (1971), entretanto adaptada ao cinema por Fernando Lopes, ou desse texto dificilmente catalogável que é Finisterra (1978). Porém, para os mais atentos, não era novidade que desaparecia uma das grandes vozes do século XX português. Assim esta antologia possa despertar o interesse de quem o conheça mal ou não conheça de todo.

In «Aula de Poesia», série de textos breves de Eduardo Pitta (com revisão de Carlos Pinheiro), Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2010 (1.ª edição).

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