quarta-feira, 21 de outubro de 2015

[O senhor habitua-se, conquanto esta profissão tenha as suas dificuldades específicas], passagem do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Imagem encontrada em http://www.ojornalista.com/
O chefe da redacção, um tudo-nada vesgo, tinha servido na secretaria do Exército. Mas no seu porte não havia sugestões marciais. Pelo contrário: era um homem frondoso, calmo, de cabelos manchados de cinza, que punha em todos os gestos uma arrumação criteriosa. A propensão para o escrúpulo e a ordem reflectia-se nos linguados que lhe saíam das mãos, sempre limpos, sempre preenchidos por uma letra rendilhada. Desprezava rancorosamente as máquinas de escrever e não consentia no jornal uma única dactilógrafa. «Esses trastes fizeram-se para analfabetos. Nem só a boa redacção basta para denunciar o escritor: é também preciso escrever com o seu punho e escrever bem!» E, assim, compunha os seus opulentos artigos com um aparo especial fornecido, em exclusivo, por um estabelecimento da Baixa. Ordenava que lhe guardassem, libertos de dedadas, os seus originais. «Hoje, neste século de espavoridos, não há o respeito pela escrita. Vêem-se gatafunhos. E a escrita é o barómetro da saúde dos espíritos! Eu queria ver os meus amigos com o meu professor primário!... Mas têm as máquinas, pronto…» Na apresentação de Carlos Nóbrega não dispensara a credencial decisiva:
– O senhor é dos tais?
Nóbrega começará a sua tarefa ainda com uns restos de uma ideia muito romântica sobre o que fosse um jornal. Mas acomodou-se como pôde. Revia as provas automaticamente e automaticamente estendia os dedos para o telefone. Nos minutos vagos rabiscava desenhos ou retratos dos colegas e pensava nos saborosos passeios nocturnos que o emprego lhe roubara. O chefe da redacção, de resto, era afável, embora respeitasse as hierarquias.
– O senhor habitua-se, conquanto esta profissão tenha as suas dificuldades específicas. Específicas, entenda-me! Tenho visto bom menino universitário vir para aqui com prosápias e não saber, afinal de contas, alinhavar a notícia de um funeral…
Entre o chefe, que vinha de raspão em algumas noites, e o administrador, um fuinha que fazia do jornal o seu lar de todas as horas, existia uma ciumeira tempestuosa.
– Ou se serve a ele ou a mim! – bradava o fuinha. O chefe, mais comedido, não traduzia os seus sentimentos.
No dilema de agradar a um ou a outro estava o segredo da conservação dos empregados menores. O administrador tinha sido, nos bons tempos, cocheiro e nessa qualidade prestara alguns serviços memoráveis ao proprietário do jornal, não só de natureza política, mas também amorosa. Firmando nesses laços de raiz, o ex-cocheiro era uma rocha ali dentro. Quem viesse de novo devia saber equilibrar-se entre os dois abismos.
A Tribuna, como a maioria dos jornais de província, tinha uma vida difícil; daí, não podendo recrutar jornalistas profissionais, ter de escolher o seu estado-maior entre pessoas cuja principal garantia era a fidelidade à empresa ou aos subsidiadores. Assim se explicava a presença do ex-sargento e do ex-cocheiro nos postos de comando; mas esses bravos homens eram capazes de todos os sacrifícios e a sua devoção pelo jornal compensava à larga alguns deslizes intelectuais.  

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

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