quarta-feira, 21 de outubro de 2015

[o lugar de redactor da noite], fragmento do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Imagem encontrada em http://www.pravda.com.ar/
Seabra andava alvoroçadíssimo. Como a revista era lida e ridicularizada pelos cafés do bairro universitário, ele, orgulhoso e insensível às estúpidas graçolas, vestia agora uns coletes espalhafatosos, que ninguém mais se lembraria de usar. O seu nome no corpo directivo da Rampa era um troféu. Tornava-se-lhe necessária essa glória de ser distinguido na rua, mesmo que a curiosidade começasse por ser despertada por uma banalidade tão formal como um colete. Estimulado aos grandes gestos, retribuíra com um fato azul-marinho o busto que o escultor lhe esboçara. Intimamente, esperava uma oportunidade de sugerir que a reprodução dessa bela peça de escultura, talhada com vigor e frenesi, fosse publicada no segundo número da revista.
Esse facto, naturalmente, tinha-lhe feito desabar as desconfianças quanto à personalidade de Carlos Nóbrega. Não havia dúvida de que o homem compreendera, enfim, a missão que se exige de um artista. Por isso, massacrou meticulosamente os amigos do jornal e um dia pôde chegar à pensão com a notícia desejada; cento e cinquenta escudos por mês e um horário, nada abusivo, das nove da noite à uma da manhã. Nóbrega passaria a ter ao seu cargo a revisão de provas, a coordenação dos telegramas das agências e a crítica aos esporádicos salões de pintura. Seabra galgara as escadas de expressão triunfante e previra que o escultor desse largas ao seu reconhecimento por tal prova de camaradagem. Preparara mesmo uma resposta adequada: «Isso não tem nenhuma importância. Devemo-nos um sagrado auxílio mútuo.» Mas o escultor de modo nenhum ficara surpreso ou comovido: sem largar os pincéis, dissera por fim:
– Sabe, por acaso, se eles estarão dispostos a adiantar-me um mês de ordenado?
– Não sei, bem vê…
Seabra, para corrigir o desapontamento, volveu a sua atenção para outros lados. Isabel estava de pé, de costas para a luz da janela, contrafeita da posição fatigante. Pela primeira vez reparava que a miúda se fazia rapidamente mulher. E bem jeitosa!
– Prometes… – disse-lhe. – Estás a ficar um torrãozinho de açúcar…
Aquela rapariguita de corpo gracioso a despontar... Já na aldeia, com a pastora da quinta do avô, ele tivera uma inesquecível aventura. E esta gente de baixa condição não trazia complicações. Voltou-se para Carlos Nóbrega, numa última tentativa de o forçar à gratidão:
– Digo-lhe que é o lugar mais suportável do jornal. Eu, que tenho por lá passado os meus bocados…
E ficou-se por aí, certo de que os outros saberiam interpretar as reticências: ele, como intelectual, tinha de ser visita assídua desses meios.
Nóbrega, indiferente, limpava as mãos a um trapo, depois de fazer sinal à rapariga para aliviar os músculos.
– … Se eu tivesse de escolher, isto é, se estivesse no seu caso – insistia Seabra –, preferia, sem hesitações, o lugar de redactor da noite. Durante o dia aparecem meninos com artiguinhos, e amigalhaços que vêm falar da guerra e pedir umas notícias de compadrio. Quanto ao ordenado, embora modesto, não ofende ninguém, não é verdade? E fica com o dia livre para as suas coisas.
– Meu bom amigo: você está perturbado com a ideia de que será preciso rogar-me desculpas por me ter conseguido um emprego.
Os olhos de Seabra arregalaram-se perante tão imprevisível comentário. Desapoiado, farejando uma situação ridícula, sorriu indefinidamente, como se um sorriso fosse, só por si, elucidativo. Dedicou ainda um aceno brejeiro à Isabelita – estava apetecível, o diabo da garota! – e saiu, ajeitando com azedume as abas do colete.

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

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