terça-feira, 2 de setembro de 2014

[sentimento de uma lei de irmandade no sangue das palavras], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem encontrada em http://www.sindjorce.org.br/
Nazaré, 15 de Julho de 1955 – Breve encontro luso-brasileiro da poesia e da prosa. Um abraço lavado por este mar de transparências castiças e apertado pelo mesmo vento que enlaça com nós sentimentais os pinheiros da duna.
Não sei, mas há qualquer coisa de sagrado num diálogo entre pessoas que falam a mesma língua em tons diferentes. São misteriosas distâncias físicas e metafísicas que se aproximam e se entendem logo, sejam quais forem as diversidades que testemunham, e guardando ambas a graça irredutível. Numa palestra de irmãos de pátria, é inevitável certa monotonia que o prévio acordo a respeito de alguns valores essenciais motiva: num colóquio em que um dos parceiros se exprime num idioma estranho, a raiz dos assuntos nunca se atinge, porque fica sempre de fora não sei que subtil essência da verdade, que se recusa nas locuções alheias; mas quando os interlocutores usam dum léxico comum, que se matizou em terras diferentes, desaparecem todos os baixios ou desníveis de compreensão, e a conversa parece uma seara a crescer. As duas partes como que se induzem mutuamente. Ressuscitam vocábulos sepultos no cemitério dos dicionários, surgem expressões ou imagens já pressentidas mas informuladas, ensina-se e aprende-se na simples maneira de oferecer um café ou pedir um cigarro. Clarifica-se sobretudo nos recessos da alma o baço sentimento de uma lei de irmandade no sangue das palavras – a lei da conservação do espírito nas suas formas específicas de comunicação, por mais que as circunstâncias o dividam pelas cinco partes do mundo.

In «Diário (7.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1983 (3.ª edição, revista).

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