terça-feira, 2 de setembro de 2014

[chegado neste momento da tipografia, sensível e frágil como um doente que acabasse de sair duma sala de operações], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem encontrada em http://www.tireiumafoto.com/

Coimbra, 14 de Março de 1955 – Mais um livro. Aqui o tenho em frente, chegado neste momento da tipografia, sensível e frágil como um doente que acabasse de sair duma sala de operações. Pego-lhe, e todo ele se dói, hesitante na frescura da tinta, na inconsistência do grude, na virgindade do conteúdo. E, não sei porquê, a insegurança que lhe vejo contagia-me, agrava-me as dúvidas, cria o pânico no meu espírito. Mal preservado nas suas páginas, prestes a ser escancarado na praça pública, sinto-me aterrado e vulnerável também. Bate um amigo à porta, e escondo-o apavorado. Só amanhã, quando estiverem prontos alguns centos de exemplares, ganharei coragem para o mostrar. A quantidade poderá de certa maneira proteger-me. Será um exército da mesma debilidade a defender o autor.  

In «Diário (7.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1983 (3.ª edição, revista).

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