segunda-feira, 12 de maio de 2014

[Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa], excerto de «A morte em Veneza», de Thomas Mann

Thomas Mann
Céu, terra e mar jaziam ainda numa palidez crepuscular, vítrea, imaterial; uma estrela perdida nadava na ausência de ser. Mas chegou um sopro de lugares longínquos, uma nova alada, e dizia que Eos se levantara do leito do esposo, e veio então o primeiro e doce enrubescer das linhas mais distantes do mar e do céu com que a criação se anuncia aos sentidos. A deusa aproximava-se, ela que raptara Clito e Céfalo e gozava agora o amor do belo Oríon, desafiando a inveja dos deuses no Olimpo. Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa, um brilho e florescer de graça indizível, nuvens infantis, banhadas de luz e transparentes, flutuavam no ar azulado e rosa como pequenos amoretti, caía púrpura sobre o mar e era espalhada pelas ondas, lanças de ouro rasgavam o ar à altura do céu, o brilho tornou-se fogo, em silêncio, com violência divina desmedida, brilho e ardor e labaredas voluteavam, e com cascos impacientes os corcéis sagrados de Apolo levantaram da esfera da Terra. Iluminado pelo esplendor do deus, o homem em vigília solitária fechou os olhos e deixou que as suas pálpebras fossem beijadas pela glória. Com um sorriso confuso, perplexo, reconheceu sentimentos passados, tormentos preciosos e prematuros do coração, que haviam perecido no ofício rígido da sua vida e que agora regressavam surpreendentemente transfigurados. Ansiava, sonhava, os seus lábios formaram lentamente um nome, e sorrindo sempre, a face virada para a frente, as mãos cruzadas no colo, adormeceu novamente na cadeira.

In «A morte em Veneza», de Thomas Mann (tradução de Isabel Castro Silva e revisão técnica de Helder Guégués), Colecção «Ficções» (n.º 21), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Junho de 2004 (1.ª edição).

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