sábado, 7 de dezembro de 2013

[Somente Eguchi diferia um pouco dos velhos que frequentavam aquela casa], excerto do livro «A Casa das Belas Adormecidas», de Yasunary Kawabata

Yasunary Kawabata – Fotografia retirada de http://japandailypress.com



















O universo mais desumano tornava-se humano à força de hábito. Mil depravações estão escondidas nas sombras deste mundo. Somente Eguchi diferia um pouco dos velhos que frequentavam aquela casa. Poder-se-ia mesmo dizer que ele diferia completamente. O velho Kiga, que o tinha lá introduzido, tinha-se enganado acerca dele, julgando que se encontrava no estado de todos eles, porque Eguchi ainda não perdera a sua virilidade. Por conseguinte, era de presumir que ele não podia compreender nem a verdadeira tristeza, nem as alegrias, nem as saudades nem a solidão que sentiam os velhos que frequentavam aquela casa. Para ele não era de maneira alguma indispensável que a rapariga estivesse a dormir de tal forma que não pudesse acordar em nenhuma circunstância.
Logo na sua segunda visita, por exemplo, estivera quase, com a rapariga provocante, a infringir as interdições da casa e apenas a surpresa de a encontrar virgem tinha feito com que se retirasse. Depois disso tinha jurado respeitar as regras da casa, ou melhor, a tranquilidade das «Belas Adormecidas». Tinha jurado não quebrar o segredo dos velhotes. E, contudo, a que preocupações podia corresponder o facto de, naquela casa, não se pedir colaboração senão a raparigas virgens? Seria para responder a um desejo, que poderíamos chamar piedoso, dos velhos? Eguchi julgava compreender aquilo, ao mesmo tempo que lhe parecia estúpido.
Contudo, a rapariga daquela noite era bizarra. O velho nem queria acreditar. Soergueu o busto, apoiou o peito no ombro da rapariga e contemplou-lhe o rosto. Como todo o seu corpo, o rosto da rapariga era irregular. E contudo, contrariando as expectativas, era ingénuo. A base do nariz era um pouco achatada e a parte superior baixa. As faces eram redondas e largas. Os cabelos desciam até um ponto bastante baixo da testa, formando um bico. Os sobrolhos curtos eram crespos e vulgares.
«Ela é graciosa!», murmurou o velho, apoiando a face contra a face da rapariga. Também esta era lisa. Sob o peso que se comprimia sobre o seu ombro, a rapariga virou-se de barriga para o ar. Eguchi afastou-se.
O velho ficou um momento com os olhos fechados. Isso devia-se também ao facto de o odor da rapariga ser extraordinariamente denso. Sabe-se que nada é mais propício a evocar as recordações do passado que os odores, mas aquele era particularmente adocicado e espesso. Não evocava mais nada a não ser o cheiro leitoso de um bebé ao peito. Os dois odores diferiam em tudo. Mas não eram, por outro lado, os odores fundamentais da espécie humana? Sempre tinham existido velhos que procuravam fazer do odor que emanam as rapariguinhas uma droga de rejuvenescimento e de longevidade. Dava vontade de perguntar se o odor daquela rapariga não era um perfume dessa natureza. Se o velho Eguchi se atrevesse a infringir em relação àquela rapariga as interdições daquela casa, ela espalharia um odor odioso e acre. Contudo, se ele pensava assim, não era isso sinal de que estava já demasiado velho? Um odor intenso e acre como o daquela rapariga não seria, também, o que estava na origem do nascimento do ser humano? Era uma rapariga que devia conceber com muita facilidade. Por mais profundamente adormecida que estivesse, os processos fisiológicos não eram interrompidos e no dia seguinte acabaria por acordar. Supondo que ela concebia, isso ficava completamente ao seu arbítrio. Que se passaria se o velho Eguchi, aos sessenta e sete anos, deixasse no mundo um filho concebido dessa forma? O que conduz o homem ao «mundo dos demónios» é mesmo, ao que parece, o corpo da mulher.
Contudo, a rapariga tinha sido privada de toda e qualquer resistência. Em proveito dos seus velhos clientes, em proveito de lamentáveis velhos. Não tinha qualquer roupa sobre o corpo e não despertaria em circunstância alguma. Eguchi sentia-se desgraçado como se estivesse doente do coração e surpreendeu-se a murmurar: «Ao velho a morte, ao jovem o amor, a morte uma só vez, o amor não sei quantas vezes!» Tinha sido apanhado de surpresa, mas aquilo apaziguou-o. Não estava na sua natureza ser enfático até àquele ponto. Lá fora ouvia-se o tombar da neve misturada com a chuva. O barulho do mar parecia ter sido abafado. A visão de um mar vasto e sombrio onde os flocos de neve se dissolviam quando tombavam, deparou-se ao velho. Uma ave de rapina semelhante a uma águia imensa, segurando no bico uma coisa meia devorada e sangrenta, volteava sobre as negras vagas que rasava com as asas. Seria essa coisa um bebé? Era muito improvável. Vendo mais de perto, seria aquela a imagem das depravações humanas? Eguchi sacudiu levemente a cabeça e dissipou a visão.

In «A Casa das Belas Adormecidas», de Yasunary Kawabata (com Introdução de Yukio Mishima e tradução de Luís Pignatelli), Colecção «O imaginário» (n.º 11), Assírio & Alvim, Maio de 1986 (1.ª edição).

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