terça-feira, 12 de março de 2013

[Procurem a mulher o homem que num bar], excerto de «A invenção do amor e outros poemas», de Daniel Filipe


Daniel Filipe (Imagem retirada de http://saber-literario.blogspot.pt)


















[…]
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios   Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever.

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de
         automóveis
Já não basta ficar frente ao copo no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los   E é preciso encontrá-los
[…]

In «A invenção do amor e outros poemas», de Daniel Filipe, colecção Forma (n.º 1), Editorial Presença, Queluz de Baixo (Lisboa), Maio de 2006 (11.ª edição).

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