domingo, 3 de março de 2013

[A HORA DA PARTIDA], excerto do livro «O amante» de Marguerite Duras

Marguerite Duras – Fotografia retirada de http://www.lefigaro.fr
Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirene, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundar-se lentamente.

Ela também, fora quando o barco lançara o seu primeiro adeus, quando tinham recolhido a escada de portaló e os rebocadores começado a puxá-lo, a afastá-lo da terra, que tinha chorado. Fizera-o sem mostrar as suas lágrimas, porque ele era chinês e não se devia chorar esse género de amantes. Sem mostrar à mãe e ao irmãozinho que sofria, sem mostrar nada, como era habitual entre eles. O grande automóvel dele estava lá, comprido e negro, no banco da frente o motorista fardado de branco. Estava um pouco afastado do parque de automóveis da companhia marítima, isolado. Ela tinha-o reconhecido por esses sinais. Era ele na parte de trás, essa forma quase invisível, que não fazia qualquer movimento, abatido. Ela estava encostada à amurada como da primeira vez na barcaça. Sabia que ele olhava para ela. Ela também o olhava, já não o via mas ainda olhava para a força do automóvel preto. E depois, por fim, tinha deixado de o ver. O porto apagara-se, e a seguir a terra.

Havia o mar da China, o mar Vermelho, o oceano Índico, o canal de Suez, de manhã acordávamos e já estava, sabíamo-lo pela ausência de trepidações, avançávamos pelas areias. Mas antes do mais havia aquele oceano. Era o mais distante, o mais vasto, chegava ao Pólo Sul, o mais comprido entre escalas, entre Ceilão e a Somália. Às vezes estava tão calmo e o tempo tão puro, tão suave, que, quando o atravessávamos, parecia como que uma outra viagem que não esta através do mar. Então o barco todo se abria, os salões, as coxias, as vigias. Os passageiros evitavam as cabinas tórridas e dormiam mesmo no convés.

No decorrer de uma viagem, durante a travessia desse oceano, alguém morrera. Ela já não sabia muito bem se foi no decorrer dessa viagem ou doutra viagem que isso aconteceu. Havia gente que jogava às cartas no bar da primeira classe, entre os jogadores, um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, tinha pousado as cartas, saíra do bar, atravessara o convés a correr e atirara-se ao mar. O tempo de parar o barco que ia com muita velocidade, e o corpo tinha-se perdido.

Não, ao escrever isto, ela não vê o barco mas um outro lugar, o lugar em que ouviu contar a história. Era Sa Déc. Era o filho do administrador de Sa Déc. Ela conhecia-o, ele também andava no liceu de Saigão. Lembra-se dele, muito alto, o rosto meigo, moreno, óculos de aros de tartaruga. Não se tinha encontrado nada na cabina, nenhuma carta. A idade ficou na memória, aterrorizante, a mesma, dezassete anos. O barco voltara a pôr-se em funcionamento ao alvorecer. O mais terrível era isso. O nascer do Sol, o mar vazio, e a decisão de abandonar as buscas. A separação.

E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha passara-a justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar.
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In «O amante», de Marguerite Duras (tradução de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira), Círculo de Leitores (licença editorial por cortesia de Difel), Casais de Mem Martins (Rio de Mouro), Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

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