terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

NÃO SEI NADAR, excerto do livro «Senso – O caderno secreto da Condessa Lívia», de Camillo Boito

Imagem retirada de http://sauvage27.blogspot.pt
O dia estava esplêndido, com um sol que nos encadeava; à esquerda despontavam no céu azul as altas chaminés de cúpula redonda, as cornijas alvas e os telhados vermelhos, enquanto à direita se erguia o comprido paredão dos Estaleiros, severo e compacto. Os nossos olhos estonteados pousavam em certas sombras profundas, nos pontos em que se ocultava o espaço de uma pérgula ou se entrevia uma ruela apertada; e as águas brilhavam em todos os tons de verde, reflectiam todas as cores, perdiam-se aqui e ali em círculos e riscas de um negro denso. Dez ou doze garotos, num berreiro a plenos pulmões, corriam e saltavam pelo passeio, que para o lado do canal não tinha qualquer protecção. Uns eram pequeninos, outros maiorzinhos. Um dos pequenos, quase nu, gorducho, de caracóis louros que lhe coroavam a carita rosada e rechonchuda, fazia barulho que nem um endemoninhado, dando palmadas ou beliscando os companheiros e fugindo depois como um raio.
Parei a observá-los, enquanto Remigio me contava as suas grandezas passadas. De repente, aquele demónio de miúdo, não conseguindo no meio de uma corrida precipitada controlar os pés à beira do canal, caiu à água. Ouviu-se um grito e um baque, e logo a seguir encheram ares os berros de todos os rapazes e de todas as mulheres que estavam antes a conversar na rua ou às janelas; por entre aquele clamor sobressaía o grito agudo, desesperado, aflitivo, da jovem mãe, que, lançando-se aos pés de Remigio, o único homem presente, berrava: «Salve-mo, por favor salve-mo!» Remigio, frio, gélido, respondeu à mulher: «Não sei nadar.» Entretanto, um dos rapazes mais velhos lançara-se à água, agarrara pelos caracóis louros o pequeno e puxara-o para a margem. Foi um instante. A gritaria transformou-se num aplauso frenético; as mulheres e os rapazes choravam de alegria; acorria gente de todos os lados para assistir, e o miúdo louro mirava tudo à sua volta com os grandes olhos azuis-celestes, admirado com tanta confusão. Remigio, com um puxão violento, arrancou-me do meio da multidão.

In «Senso – O caderno secreto da Condessa Lívia», de Camillo Boito (tradução e introdução de José Colaço Barreiros), Quetzal Editores, Lisboa, 1988 (1.ª edição).

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