quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poema de Eugenio Montale [ANTIGO, fico embriagado pela voz], de «Ossos de choco» (1916-1927)

Eugenio Montale – fotografia retirada de http://www.excite.it












ANTIGO, fico embriagado pela voz
que sai das tuas bocas quando se abrem
como verdes sinos e voltam
para trás desaparecendo.
A casa dos meus longínquos estios
ficava a teu lado, como sabes,
naquela terra onde o sol abrasa
e os mosquitos soltam nuvens pelos ares.
Agora como então emudeço na tua presença,
mar, e não me acho digno já
do solene ensinamento
da tua respiração. Foste o primeiro a dizer-me
que o ínfimo fermento
do meu coração era apenas um momento
do teu; que eu tinha bem no fundo
a tua audaciosa lei: ser vasto e diferente
e ao mesmo tempo constante:
e esvaziar-me assim de toda a sujidade
como tu fazes quando lanças nas areias
entre cortiças algas e estrelas-do-mar
os inúteis despojos do teu abismo.

In «Poesia», de Eugenio Montale (selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos), colecção ‘Documenta Poetica’, Assírio & Alvim, Junho de 2004 (1.ª edição).

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