segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ALEGRIA DA ESCRITA, poema de Wislawa Szymborska, do livro «Spo pociech» (Tem piada)

Wislawa Szymborska  – fotografia retirada de http://regresso-a-itaca.blogspot.pt














Para onde corre esta corça escrita pela mata escrita?
Beber da água escrita
que reflectirá o seu focinho como o papel químico?
Por que levanta a cabeça, ouvirá algo?
Sobre as quatro patas pela realidade concedidas,
debaixo dos meus dedos, apura o ouvido.
A palavra silêncio vai farfalhando no papel
e afastando
os galhos pela palavra “bosque” suscitados.

Por cima da folha branca, agacham-se para saltar
letras que se podem dispor mal,
frases que acuam,
das quais não escapa.

Numa gota de tinta há vários
caçadores de olhar franzido
prestes a correr caneta abaixo,
cercar a corça e fazer pontaria.

Não sabem que estão fora da vida real,
que neste preto no branco há outras leis.
Um pestanejar dura tanto quanto eu queira,
posso seccioná-lo em pequenas eternidades
cheias de balas imobilizadas no ar.
Se eu assim dispuser, nada te acontecerá.
Nem uma folha cairá sem a minha vontade,
nem um cisco se vergará sob o casco de um ponto final.

Será que há um mundo
cujo destino dependa do meu poder absoluto?
Um tempo acorrentado pelas minhas letras?
Uma realidade que persista por minha ordem?

Alegria da escrita.
Oportunidade de eternização.
Vingança da mão mortal.

In «Alguns gostam de poesia – Antologia», com poemas de Czeslaw Milosz e de Wislawa Szymborska  
(selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; e revisão de Vasco Renato), 
Cavalo de Ferro Editores, Lda., Março de 2004 (1.ª edição).

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