quinta-feira, 26 de maio de 2016

MEA CULPA, poema de Telo de Morais

















Dentro de mim há um mar
De limites
Que desconheço.

Volúvel e imprevisto
Capaz de mais fortes tempestades
Turbulentas, rebeldes,
Até à suave calmaria
Que o céu azul
Cobre com enlevo.

É o tempo das estranhas melodias
Trazidas pela brisa
Em que as sereias
Entoam cânticos de louvor
Ao deus Neptuno.

Velas que atravessam,
Vagarosas,
O horizonte em fogo,
Aurora boreal dos quadros
De uma romântica avó.

Mas, quando, súbita,
A borrasca de enxofre cai
E as águas se encrespam com violência
Nas vagas da ira
Naufrago e sucumbo,
Roda de leme abandonada
À sua própria culpa.

Depois,
E sempre,
O travo amargo da derrota,
De uma secreta vergonha.

Até que,
Mais tarde,
A calmaria bonançosa
Me devolve a paz desejada.

In «Estudo para Auto-retrato (Poemas)» (com prefácio de Andrée Rocha), edição do Autor (distribuidor: Livraria Almedina), Coimbra, Novembro de 1997 (1.ª edição).

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