segunda-feira, 7 de março de 2016

«Nada do humano é alheio à literatura», afirma José Régio

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(…) nada do humano é alheio à literatura. O homem individual e o homem social, o homem moral e o homem metafísico, o homem religioso e o homem político, o homem da razão e o homem obscuro, o homem animal e o homem angélico – todos os homens, revelados ou a revelar, são objecto da literatura. Assim, de certo ponto de vista, é a literatura a mais impura das artes, aquela em que mais se intrometem todos os interesses do homem; o que não impede que uma obra de arte literária possa ser encarada do seu mero ponto de vista específico, – o estético. Por tudo isto exige a literatura um grande à-vontade de movimentos. Todas as janelas abertas, todas as portas francas, e a cada artista a liberdade de abrir novas janelas, portas, postigos! Eis o que desde a extrema juventude sempre tenho defendido, exigindo para mim próprio e para os outros uma independência que evidentemente desagrada a todos os partidos. Claro que certas épocas preferem o homem-indivíduo e outras o homem social; certas o homem religioso e outras o homem dos sentidos; etc., etc. Depende isto das épocas – é coisa do tempo – e até as preferências dependentes das épocas se podem ainda corromper em modas. Livre seja o artista de obedecer às tendências da sua época, se por determinação da sua própria natureza o faz. Livre seja de alegremente lhes desobedecer, se a sua natureza sobretudo o atrai a outros aspectos e regiões do humano. Ao fim e ao cabo, alguma vez poderá estar fora do seu tempo, onde sempre coexistem muito diversas tendências? O erro está em se pretender impor assuntos, posições, até estilos, até maneirismos epocais, onde, em razão da fundamental espontaneidade da arte, só a insubmissão do artista pode imperar. Submisso, não tanto o é ele às resoluções conscientes da sua vontade clara como, principalmente, às solicitações obscuras da sua mais funda intimidade. Pelo caminho desta subjectividade se aproxima ele da objectividade da obra de arte – da sua universalidade e da sua intemporalidade. Pois como toda a obra de pensamento, como toda a obra de ciência, ou transcende a obra de arte as limitações do seu lugar e tempo (o que não quer dizer que não possa manter com eles estreitas relações) ou fica reduzida a mero documento histórico.

In «Introdução a uma Obra», posfácio de José Régio ao seu livro «Poemas de Deus e do Diabo» (com oito desenhos do Autor), Obras Completas de José Régio, Brasília Editora, Porto, Julho de 1972 (8.ª edição).

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