terça-feira, 23 de junho de 2015

[O remorso que os deveria levar a ler mais tarde], excerto de artigo de José Augusto Cardoso Bernardes


(…) Falo do contacto com o livro, enquanto unidade de pensamento e de discurso. Apesar de hoje o confundirmos com o suporte impresso, o livro conheceu já vários tipos de formato. Aquilo que melhor o caracteriza é justamente o facto de constituir uma unidade concatenada imputável a um autor (mesmo quando este é anónimo). Quer sob a forma de rolo quer sob a forma de códex quer ainda sob o novo formato electrónico, o posto do livro continua a ser o fragmento e a informação não autoral.
Embora possa acolher fragmentos (que muitas vezes sobraram de um livro ou não chegaram a transformar-se nele) e também jornais e revistas, mapas, gravuras e fotografias, a biblioteca guarda sobretudo livros.
Todos sabemos que o nosso tempo favorece o fragmento, seja em forma de capítulo, seja em forma de paráfrase por vezes já não imputável a nenhum autor. Esta mentalidade, que antes apenas prevalecia no Ensino Secundário, tem vindo a ganhar espaço nas universidades. Mesmo em áreas onde se poderia esperar que a sua implantação pudesse ser mais difícil (penso sobretudo nas Ciências Sociais e nas Humanidades) existem sinais abundantes dessa tendência. O estudante trabalha à base do ecrã, acciona motores de busca e cria a ilusão de que os dados que recolhe equivalem a conhecimento caucionado. Alguns professores não desistiram de verberar estes procedimentos, mas, muitas vezes de forma inconsciente, outros vão fazendo concessões que crescem de ano para ano. Basta olhar para a contracção das listagens bibliográficas da maior parte das cadeiras. Falo agora apenas das cadeiras de Letras, evocando o meu tempo de aluno, quando os programas eram acompanhados de longas listagens de estudos (na sua maioria, constituídas por livros) quase nunca hierarquizada; evoco ainda o meu tempo de assistente, onde me competia guiar os alunos por entre o emaranhado da bibliografia que o Professor elaborava, permitindo a quem se contentava com a mediania, dispensar a leitura de metade dos livros. Mas ainda sobrava quantiosa metade e as instruções de então iam no sentido de criar naqueles que não lessem tudo o remorso que os deveria levar a ler mais tarde. »

Excerto do artigo «A Biblioteca, a Universidade e o conhecimento em rede», de José Augusto Cardoso Bernardes (director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra), publicado na «Rua Larga» (Revista da Reitoria da UC), número 40, Julho de 2014

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