sexta-feira, 10 de abril de 2015

“Ao que isto chegou?! Até assassinaram o bom do Dr. Miguel Bombarda”, excerto de romance de Fernando Madaíl

Foto encontrada em http://www.centenariodarepublica.org/
“Ao que isto chegou?! Até assassinaram o bom do Dr. Miguel Bombarda”, desabafava Capitolina Perestrelo, com a sua testa preocupada e ainda de luto pelo filho, pacato caixeiro de loja de ferragens abatido na confusão do Terreiro do Paço, na manhã em que, dois anos antes, tinham baleado D. Carlos e o príncipe real D. Luís Filipe. “E ninguém se lembra já que também mataram, há uns cinco anos, o Dr. Refóios, outro médico ilustre e lente em Coimbra”, acrescentava Francisco Amaral, blusa de riscado azul, mirantes de afastar intruso e espessa bigodeira.
“Por onde andará o meu filhinho?...”, lamuriava-se Rosalina Gertrudes, que tinha ido encher um cântaro no chafariz de pedra e era conhecida por fazer meia-desfeita de bacalhau e grão com espinafres tão bem como os galegos das melhores casas de pasto. “O-o-ora! Vá à f-a-v-a!”, gaguejava, por causa dos nervos, Zilda Cabanas, a menina dos crochets e do odor a alecrim, sem paciência para ouvir mães-galinha. “Pois sim, rala-te!”, dava a sensação de lhe estar a responder a esfíngica Laura Mayer, enquanto pisava as folhas secas dos plátanos que começavam a forrar passeios e empedrado, onde se misturavam com outras folhas caducas das árvores citadinas.
“A culpa é da padralhada! E, sobretudo, desses debochados jesuítas! A mão secreta dessa gente, que usa saias como as mulheres”, espumava o ferreiro Zé Maria Galvão, organizador de excursões num grémio do Partido Republicano. “Abrenúncio! Seus incréus! Isto é a ira de Deus, que Lisboa é uma Gomorra”, vociferava o sacristão João Franco – e ninguém duvidaria da ciência médica de Artur Leitão, autor do livro Um Caso de Loucura Epiléptica, em que diagnosticava, à distância e com preconceito ideológico, o ex-primeiro-ministro. “Não querem ver este recolhe-côngruas, este vendedor de santinhos coloridos, este inútil que vive à conta dos analfabetos”, implicava, numa voz de trovão, Judas Cafeteiro, que tinha apedrejado, na tarde da véspera, mal se soubera do assassínio de Miguel Bombarda, a redacção do jornal católico Portugal, que ficava num segundo andar da Rua Garrett.
“Credo! Vem aí o Anticristo!”, e quase dava um fanico a Emília Fontinha, mulheraça loura e de nevralgias simuladas para obter mimos e presentes do marido, o Tó Alcobia, um enjeitado da roda, com feições aristocratas e o tique de mexer nos cabelos. “Olha-me esta!”, comentava a Faustina Alcoviteira, sorriso malicioso de quem conhece perfumes e podres de toda a vizinhança. “Isto é tudo uma grande paródia!”, lançava Hipólito Lamas, barba ruiva e olhar perturbado, que diziam ter sido atingido pelo “micróbio da loucura”. “Ai! Ai!”, piava Mena Nascimento, no seu xaile de franjas, chinelos de ourelo e saia remendada. “Parem lá com essa cantoria!”, resmungava, sem companhia das guitarras, a voz argentina da fadista Cacilda.
Naquele bairro tanto havia assinantes fidelíssimos do periódico monárquico por excelência, o Correio da Manhã, como leitores assíduos da folha republicana A Vanguarda, sem esquecer os que exibiam o governamental Diário Ilustrado e os que brandiam o anarquista Amanhã – “ou o sindicalista A Greve? Não! Esse só tinha sido publicado uns meses em 1908…” –, embora a maioria preferisse mesmo os menos políticos Diário de Notícias e Jornal do Comércio. E, como tinha escrito no seu programa um semanário de província – “qual teria sido? Ah! Esta minha cabeça! Só servirá para pôr chapéu?...” –, convenientemente lançado a partir da capital, “o livro é para sábios ou para estudiosos; o jornal é para toda a gente. Serve de cartilha ao analfabeto, de recreio ao ilustrado, de passatempo ao frívolo, de desenfado ao opulento e de consolo ao desventurado”. Divagações à parte, toda a Lisboa, lesse o republicaníssimo O Mundo, a que os realistas chamavam “imundo”, ou o miguelista A Nação, estava habituada aos boatos. “E ainda hão-de publicar um Intruja a Gente”, costuma ironizar Aventino Zambujal, diplomata retirado, ilustre e mundano, que jogava bridge e cultivava orquídeas.

In «A Costureira Sem Cabeça» (romance), de Fernando Madaíl, colecção «Portugal Sem Fim» (dirigida por José Manuel Barata-Feyo, em parceria com a AMI), Oficina do Livro (grupo LeYa), Fevereiro de 2011 (1.ª edição).

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