terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar], escreve Mário Cláudio sobre Rosa Ramalho

Mário Cláudio - Fotografia encontrada em http://www.cm-viladoconde.pt/
Fita 1, Lado A. Muito cedo, com a mãe e algumas, enchia o barco que, de Manhente, as deporia, mais à louça, na festa de Vilar, infusas e cântaros, sobretudo, moringues e chocolateiras, que haviam deitado no casco, com os xailes a resguardá-los de chocar. Estava estremunhada, ainda, pois que era a primeira vez que a arregimentavam, passara a noite, sem pregar olho, a imaginar a travessia. E agradava-lhe a barqueira, mais velha que nova, de rosto triangular e olhos sonsos, um contorno de boca de severidade e ternura. Chamava-se Rosa, tal qual ela, encaravam-na como referência mitológica quando, erecta, estribada nas tábuas do botezito, remava com um ritmo certo, que coisa nenhuma era capaz de perturbar. E zarpavam, rumo à outra margem, enquanto um noitibó se manifestava, na ramagem dos castanheiros a que as videiras se apegavam. Depois, perante o dia adivinhado, imobilizavam-se todas, a meio da viagem. E era a roda da vida, de repente, que passava, e havia só que escutar o que a voz da barqueira lhes dizia. «A barca daqui», começava ela, «todas as noites desaparecia. Certo dia o barqueiro, para descobrir a causa daquele encantamento, meteu-se no porão, e pôs-se de atalaia. “Rema, rema”, ouviu ele, que ordenavam, de cima. Mexeram um cadeado e, nisto, compreendeu que estava em domínio das feiticeiras. “Cheira-me aqui a fogo vivo”, declarou uma delas. “Deixa lá ir quem vai”, tornou outra. Andaram, andaram, até que ficou queda a barca e o barulho acabou. À cautela espreitou o barqueiro, do porão, a ver adonde estava, e cortou uma cana, e voltou à barca, e fez-se a caminho de Vilar. Só quando aqui chegou é que, dando conta de que era a cana da Índia, percebeu a que longes é que tinha viajado». E continuavam, sem se mover, a igual distância de ambos os lados. E observava a rapariga aquelas pás suspensas, gotejantes, a narradora que as sustentava, numa turva expectativa. Tendo descalçado os socos, então, que ficaram jazentes, um no outro massajava os pés, a enregelar nos coturnos de lã.

In «Rosa», de Mário Cláudio, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), Lisboa, Novembro de 1988 (1.ª edição).

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