terça-feira, 14 de agosto de 2012

Fernando Namora e os escritores médicos


«À pergunta do JL "Que significa para si receber o Prémio Fernando Namora?" respondo que me é particularmente grato, porque tive a sorte de incluir este autor, a cujo nome o prémio presta homenagem, entre os meus amigos, embora só o tenha conhecido pessoalmente na última etapa da sua vida. Mas há muitos anos ele me era familiar, não só através dos seus livros, como também porque a sua terra natal,  Condeixa, quase pega com a aldeia dos meus trisavós e bisavós, onde depois o meu avô foi farmacêutico e professor primário.
Recordo-me de termos falado nessa coincidência e de termos sorrido sobre o conhecimento que ambos tínhamos de nomes, factos, personagens, memórias, ligados a lugares onde tínhamos raízes. Como por exemplo a “Árvore do Urso”, que durante gerações manteve esse nome porque a ela subiu certa vez um urso, extraviado de uma companhia de saltimbancos. Mais tarde essa árvore, juntamente com os saltimbancos, entraria n' "A Casa da Cabeça de Cavalo", ao lado de lugares e personagens que também ele conhecia. Mas nessa época Namora já não estava, infelizmente, connosco, e não pude partilhar com ele esse livro.
Namora pertencia além disso à galeria, para mim fascinante, dos escritores médicos. As suas histórias de "Retalhos da Vida de Um Médico", por exemplo, eram muito parecidas com as que, desde sempre, ouvi contar em casa. Na verdade o meu pai, que também era médico e também escrevia, poderia ter pertencido a essa galeria de escritores.
O que não aconteceu, penso que por duas ordens de razões: em primeiro lugar porque, perante a dureza da vida, a literatura lhe parecia menos importante. Ou, pelo menos, não prioritária. A realidade estava à frente da fantasia e não se podia iludi-la, nem fugir-lhe. Se alguém lhe pedia auxílio – com maior ou menor urgência – ele nunca era capaz de se escusar e dizer não.
Reconhecia aliás a sua incapacidade de conciliar a medicina e a escrita. E é um facto que a maioria dos escritores médicos acabaram por abandonar a medicina, ou pelo menos por a relegar para segundo plano, como foi o caso de Namora, ou de Miguel Torga.
No caso do meu pai, foi a medicina que ocupou o centro da vida. Dia e noite bateram à sua porta, e ele socorreu quem o chamava. Muitas vezes gratuitamente, porque a sua clientela (foi médico da saúde pública e nunca teve consultório privado) era gente pobre, que não tinha meios de pagar.
Julgo no entanto que a imensa generosidade com que atendeu e acolheu os outros não chega para justificar o lugar não prioritário que deu à produção literária. Havia também certamente uma grande falta de confiança em si próprio e a dúvida se valia a pena escrever.
Foi assim que no fim da vida me deixou um pequeno espólio, com a indicação expressa de nunca vir a ser publicado. Mas deixou-me também algumas convicções. Como por exemplo a certeza de que somos responsáveis pelos outros, de que não podemos ficar confinados à fronteira da própria pele, porque os outros também fazem parte de nós, e não faz sentido estar no mundo se não for de um modo solidário. E também a ideia de que a literatura não é um passatempo nem uma causa fútil. Se o que temos a dizer não nos parece justificar a dedicação de toda a vida, é melhor fazer outra coisa, que possa ter maior utilidade.
Esse foi o tipo de preocupações que sempre me acompanharam, e influenciaram a minha relação com a escrita, que, obviamente, nunca foi pacífica.
É por isso também que a questão “escritor e sociedade”, que por vezes parece ultrapassada nas nossas sociedades mercantis, não solidárias e norteadas por nenhuma ideologia, nunca vai deixar, para mim, de fazer sentido.
Pelo contrário, penso que, justamente porque a sociedade se tornou não solidária e fragmentada, é de novo urgente reflectir sobre o lugar e o papel do escritor – e, naturalmente, de qualquer artista.
Algumas destas questões são levantadas em "Os Teclados". O facto de o livro ter encontrado eco nos leitores e de ter ganho em 1999 o Prémio da Crítica e agora o Prémio Fernando Namora pode certamente ser entendido de modo positivo, como sinal de que estas preocupações e interrogações, embora possam não ser comuns a todos, são pelo menos partilhadas por muitos.»

Teolinda Gersão (2000)

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