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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

[O senhor habitua-se, conquanto esta profissão tenha as suas dificuldades específicas], passagem do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Imagem encontrada em http://www.ojornalista.com/
O chefe da redacção, um tudo-nada vesgo, tinha servido na secretaria do Exército. Mas no seu porte não havia sugestões marciais. Pelo contrário: era um homem frondoso, calmo, de cabelos manchados de cinza, que punha em todos os gestos uma arrumação criteriosa. A propensão para o escrúpulo e a ordem reflectia-se nos linguados que lhe saíam das mãos, sempre limpos, sempre preenchidos por uma letra rendilhada. Desprezava rancorosamente as máquinas de escrever e não consentia no jornal uma única dactilógrafa. «Esses trastes fizeram-se para analfabetos. Nem só a boa redacção basta para denunciar o escritor: é também preciso escrever com o seu punho e escrever bem!» E, assim, compunha os seus opulentos artigos com um aparo especial fornecido, em exclusivo, por um estabelecimento da Baixa. Ordenava que lhe guardassem, libertos de dedadas, os seus originais. «Hoje, neste século de espavoridos, não há o respeito pela escrita. Vêem-se gatafunhos. E a escrita é o barómetro da saúde dos espíritos! Eu queria ver os meus amigos com o meu professor primário!... Mas têm as máquinas, pronto…» Na apresentação de Carlos Nóbrega não dispensara a credencial decisiva:
– O senhor é dos tais?
Nóbrega começará a sua tarefa ainda com uns restos de uma ideia muito romântica sobre o que fosse um jornal. Mas acomodou-se como pôde. Revia as provas automaticamente e automaticamente estendia os dedos para o telefone. Nos minutos vagos rabiscava desenhos ou retratos dos colegas e pensava nos saborosos passeios nocturnos que o emprego lhe roubara. O chefe da redacção, de resto, era afável, embora respeitasse as hierarquias.
– O senhor habitua-se, conquanto esta profissão tenha as suas dificuldades específicas. Específicas, entenda-me! Tenho visto bom menino universitário vir para aqui com prosápias e não saber, afinal de contas, alinhavar a notícia de um funeral…
Entre o chefe, que vinha de raspão em algumas noites, e o administrador, um fuinha que fazia do jornal o seu lar de todas as horas, existia uma ciumeira tempestuosa.
– Ou se serve a ele ou a mim! – bradava o fuinha. O chefe, mais comedido, não traduzia os seus sentimentos.
No dilema de agradar a um ou a outro estava o segredo da conservação dos empregados menores. O administrador tinha sido, nos bons tempos, cocheiro e nessa qualidade prestara alguns serviços memoráveis ao proprietário do jornal, não só de natureza política, mas também amorosa. Firmando nesses laços de raiz, o ex-cocheiro era uma rocha ali dentro. Quem viesse de novo devia saber equilibrar-se entre os dois abismos.
A Tribuna, como a maioria dos jornais de província, tinha uma vida difícil; daí, não podendo recrutar jornalistas profissionais, ter de escolher o seu estado-maior entre pessoas cuja principal garantia era a fidelidade à empresa ou aos subsidiadores. Assim se explicava a presença do ex-sargento e do ex-cocheiro nos postos de comando; mas esses bravos homens eram capazes de todos os sacrifícios e a sua devoção pelo jornal compensava à larga alguns deslizes intelectuais.  

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

[o lugar de redactor da noite], fragmento do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Imagem encontrada em http://www.pravda.com.ar/
Seabra andava alvoroçadíssimo. Como a revista era lida e ridicularizada pelos cafés do bairro universitário, ele, orgulhoso e insensível às estúpidas graçolas, vestia agora uns coletes espalhafatosos, que ninguém mais se lembraria de usar. O seu nome no corpo directivo da Rampa era um troféu. Tornava-se-lhe necessária essa glória de ser distinguido na rua, mesmo que a curiosidade começasse por ser despertada por uma banalidade tão formal como um colete. Estimulado aos grandes gestos, retribuíra com um fato azul-marinho o busto que o escultor lhe esboçara. Intimamente, esperava uma oportunidade de sugerir que a reprodução dessa bela peça de escultura, talhada com vigor e frenesi, fosse publicada no segundo número da revista.
Esse facto, naturalmente, tinha-lhe feito desabar as desconfianças quanto à personalidade de Carlos Nóbrega. Não havia dúvida de que o homem compreendera, enfim, a missão que se exige de um artista. Por isso, massacrou meticulosamente os amigos do jornal e um dia pôde chegar à pensão com a notícia desejada; cento e cinquenta escudos por mês e um horário, nada abusivo, das nove da noite à uma da manhã. Nóbrega passaria a ter ao seu cargo a revisão de provas, a coordenação dos telegramas das agências e a crítica aos esporádicos salões de pintura. Seabra galgara as escadas de expressão triunfante e previra que o escultor desse largas ao seu reconhecimento por tal prova de camaradagem. Preparara mesmo uma resposta adequada: «Isso não tem nenhuma importância. Devemo-nos um sagrado auxílio mútuo.» Mas o escultor de modo nenhum ficara surpreso ou comovido: sem largar os pincéis, dissera por fim:
– Sabe, por acaso, se eles estarão dispostos a adiantar-me um mês de ordenado?
– Não sei, bem vê…
Seabra, para corrigir o desapontamento, volveu a sua atenção para outros lados. Isabel estava de pé, de costas para a luz da janela, contrafeita da posição fatigante. Pela primeira vez reparava que a miúda se fazia rapidamente mulher. E bem jeitosa!
– Prometes… – disse-lhe. – Estás a ficar um torrãozinho de açúcar…
Aquela rapariguita de corpo gracioso a despontar... Já na aldeia, com a pastora da quinta do avô, ele tivera uma inesquecível aventura. E esta gente de baixa condição não trazia complicações. Voltou-se para Carlos Nóbrega, numa última tentativa de o forçar à gratidão:
– Digo-lhe que é o lugar mais suportável do jornal. Eu, que tenho por lá passado os meus bocados…
E ficou-se por aí, certo de que os outros saberiam interpretar as reticências: ele, como intelectual, tinha de ser visita assídua desses meios.
Nóbrega, indiferente, limpava as mãos a um trapo, depois de fazer sinal à rapariga para aliviar os músculos.
– … Se eu tivesse de escolher, isto é, se estivesse no seu caso – insistia Seabra –, preferia, sem hesitações, o lugar de redactor da noite. Durante o dia aparecem meninos com artiguinhos, e amigalhaços que vêm falar da guerra e pedir umas notícias de compadrio. Quanto ao ordenado, embora modesto, não ofende ninguém, não é verdade? E fica com o dia livre para as suas coisas.
– Meu bom amigo: você está perturbado com a ideia de que será preciso rogar-me desculpas por me ter conseguido um emprego.
Os olhos de Seabra arregalaram-se perante tão imprevisível comentário. Desapoiado, farejando uma situação ridícula, sorriu indefinidamente, como se um sorriso fosse, só por si, elucidativo. Dedicou ainda um aceno brejeiro à Isabelita – estava apetecível, o diabo da garota! – e saiu, ajeitando com azedume as abas do colete.

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

terça-feira, 20 de outubro de 2015

[O livro nas montras!], passagem do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Imagem encontrada em http://www.blogdacompanhia.com.br/

O livro nas montras! Agora podia acontecer fosse o que fosse, que nada mais importava. Embora toda a elaboração do livro, o entendimento com a tipografia, a revisão de provas, esse lento e ansioso crescimento de um sonho íntimo, cujo destino, no entanto, era ser exposto à claridade, houvesse sido feito em segredo – o pai, apesar disso, teria suspeitado já de alguma coisa? Às vezes, Sílvio julgava descobrir-lhe olhares significativos. E chegava a apetecer provocar-lhe uma censura, uma ironia, ou, quem sabe, uma palavra de espanto. «Fale! Fale, que não o temo!» Sílvio já podia suportar esse arrojo, visto que, daí a dias, o seu livro, um navio de velas soltas, o levaria à conquista de imprevistos portos. «Falem. Agora falem!» Nada o impedia também de deixar a repartição, ou a burguesa casa dos pais, ou a rapariga do bairro académico que troçava da sua persistência. Que valiam essas coisas, odiadas ou descoloridas, quando tudo o mais, a fama e a ventura, se lhe oferecia através da poesia?
O livro tinha uma capa azul-celeste e não havia dúvida de que, fosse pela capa ou por outro subtil chamariz, se destacava singularmente dos restantes volumes que o rodeavam. Quem se abeirasse das montras, olhava-o em primeiro lugar. Isso era evidente. Ele bem reparara, mais de uma vez, nas pessoas a afluírem às livrarias e ficarem uns momentos a contemplar o livro, conquanto, por uma inexplicável reserva, nem o abrissem nem lhe tocassem. Sílvio espiava, ora passando como por acaso rente às montras, ora detendo-se um pouco no passeio fronteiro. Na livraria principal da cidade, onde cavaqueavam os lentes, haviam posto dois exemplares lá dentro, bem à vista, no escaparate das novidades, e Sílvio esperava todas as tardes, quando saía da repartição, que eles já lá não estivessem. Mas estavam. Certamente o livreiro satisfazia os compradores com outros exemplares armazenados nas prateleiras, deixando ali aqueles, em exibição, para atrair novos clientes. Dias depois, porém, o livro tinha desaparecido. Aflito, inquiriu de si próprio: esgotara-se? Procurando melhor, descobriu que algum empregado inexperiente colocara por cima da sua obra uma outra novidade literária. Um romancelho qualquer. Que fazer? Deu umas voltas nervosas pela sala, simulando apreciar umas revistas, e, quando achou que os empregados estavam distraídos, libertou o seu livro do opressor que o ocultava. Quando saiu da livraria, à pressa, comprometido, não olhou mais para ninguém; mas parecia-lhe que todos o observavam, que todos haviam reparado no seu gesto de ladrão. Por isso as faces lhe ardiam, num fogo que aos outros pareceria tremendamente suspeito.
Ainda não fora ao café. Não poderia, nesses dias, enclausurar-se fosse onde fosse, quando lá fora, na rua, as pessoas o acotovelavam, estonteadas, para o admirarem melhor; quando o livro, oferecido aos olhos da cidade, precisava de ser amparado pelo seu carinho. Lá chegaria a altura de voltar ao café, com um exemplar debaixo do braço, de modo que Nóbrega bem lhe visse e pudesse, enfim, incitá-lo a esse encontro adiado durante infindáveis meses.

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

[Os livros ofereciam-lhe um prazer quase carnal], passagem do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

Fernando Namora (fotografado por Gustavo de Almeida Ribeiro)

– Pensas fazer alguma exposição em Coimbra?
Quem tinha feito a pergunta? Zé Maria ouviu-a através do nevoeiro dos seus pensamentos. Exposições, livros. Eles julgavam ser possível construir um mundo apenas com frases; e, no entanto, todos eles tinham ou julgavam ter uma aguda consciência das realidades, da vida tal como era. E acreditavam nela. Mas comportavam-se como crianças que levam os sonhos até à Lua e estendem depois os braços para alcançá-los.
Marinho devia ter respondido com um aceno de cabeça. Mas agora decidira-se a falar também:
– O meio não é para exposições, suponho. Dizem-me que há por aí uns aficionados que compram quadros quando lhos impingem a domicílio. Uns tipos que, evidentemente, não fazem distinção entre a pintura e os jarrões que lhes enfeitam as salas de visitas. Mas compram, é o que importa. Estudarei essa possibilidade. Você tem um cigarro, Luís Manuel? Perdi o maço ao apear-me do comboio.
Júlio riscava o vidro da mesa com a unha. Seabra aproveitou a oportunidade para insistir no seu tema:
– Sempre a questão da massa! O problemazinho. É revoltante estarmos sujeitos a isto. Você, Marinho, consegue realizar-se como artista pensando constantemente nessas questões do dia-a-dia, como um merceeiro tem de pensar nas letras e nos prazos de vencimento?
O outro descaiu as pálpebras sobre os olhos claros, a medir o interesse da pergunta. Numa voz incolor, respondeu com lentidão:
– Faz-se o que se pode. Há coisas mais importantes do que isso.
– Lastimável.
– Tu és irredutível, Seabra – disse Júlio, e não se sabia até onde chegara a ironia e a que verdadeiramente quisera referir-se.
A conversa escorregou logo depois para o confronto entre a literatura e a pintura. Seabra achava que a missão de um novelista era, de todas, a mais espinhosa e, ao dizê-lo, parecia insinuar a alta e terrível missão a que deliberadamente se obrigara.
Luís Manuel assistia, com prazer reconfortante, ao entusiasmo que os companheiros punham nos seus depoimentos e ele próprio conseguiu atraí-los ao comentário sobre certas edições estrangeiras que, um pouco a ocultas, haviam, enfim, chegado às suas mãos. Falando de livros, já ele poderia impor-se à consideração de Marinho, visto que era sempre o primeiro a adquirir as obras acabadas de chegar às livrarias da cidade. Não tinha, evidentemente, tempo para as ler todas, mas sabia-lhes da existência, do formato, da sedução exterior, podia mostrá-las nas fartas prateleiras da sua casa. Os livros ofereciam-lhe um prazer quase carnal. Era a própria vida condensada, acessível, fechada em volumes, que se transportava comodamente para um recanto solitário, a vida que se palpava com as mãos e à qual era fácil entregar-se ou negar-se, conforme lhe aprouvesse. Os seus dedos magros gozam o contacto do papel, o rasgar das folhas, os primores da impressão, tal uma mulher se delicia ao sentir sobre o corpo um tecido desejado.

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

[Qual deles seria um poeta?], excerto do romance «Fogo na noite escura», de Fernando Namora

 Fotografia encontrada em http://www.360meridianos.com/
Sílvio, provavelmente, no meio da rua ou nos cafés, já teria encontrado os verdadeiros poetas – os que, pelo seu heróico inconformismo, mereciam a poesia. E procurava identificá-los entre a grosseira multidão. Eles não poderiam ter a aparência de pessoas vulgares: um olhar ausente, cabelos vaporosos, um corpo esguio e, certamente, debaixo do braço, livros que não era necessário esconder. Sílvio entrava nos cafés e farejava à sua volta. Qual deles seria um poeta? E por vezes ficava tão certo de ter acertado que se sentava próximo de qualquer solitário de expressão longínqua, esperando a todo o momento vê-lo anotar versos fortuitos, destes que brotam, irreprimíveis, da mesa da solidão. Quando chegasse esse instante, dar-lhe-ia a entender que compreendera. Que era um cúmplice. Que era um igual. E dir-lhe-ia que também ele tinha um livro refugiado na gaveta, um livro que era por enquanto um rolo de papéis aguardando um título e o milagre da sua libertação. Um título? Mas não pensara já em chamar-lhe Estrelas do Pântano? Uma capa com o seu nome ao cimo, Sílvio Mendoça, e por debaixo, em caracteres amarelos sobre um sugestivo fundo negro, esse símbolo da sua amargurada poesia: estrelas, estrelas do… pântano. Mas daí à concretização do sonho! Quem sabe? Talvez já estivesse perto… Todos os meses amealhava umas economias e em breve teria provavelmente o dinheiro suficiente para a edição. O seu nome nos jornais, o seu nome gritado aos ouvidos empedernidos e surpresos dos colegas! Mendoça era um nome repugnante, sugeria a esfoliação inflamada nas costas do pai, que ele era obrigado, nos dias quentes, a ensopar com águas de virtude, mas Sílvio imporia o nojo desse nome! Ele o faria reter aos ouvidos da fama!
As coisas poderiam ainda acontecer de outro modo: o desconhecido do café leria os seus poemas e, deslumbrado, levá-lo-ia junto de um editor, convencendo-o a publicar as Estrelas do Pântano. Não seria preciso o dinheiro amealhado. Todos falariam da descoberta de um jovem que levara timidamente os seus versos às mãos de um mecenas. A cidade inteira, atónita, iria libertá-lo do cárcere da repartição. Vive e sonha, gritavam as gentes, vive para a tua grandeza! As mulheres a persegui-lo pelas ruas, tendo nos lábios flores roxas de amor e martírios; os homens a apontarem-no à curiosidade respeitosa dos que o procuravam para lhe entregar oferendas. Ah, não! Era sonhar demasiado; era despedaçar-se, mais tarde, de encontro à realidade!
Efectivamente, regressava dessas viagens pelo sonho com os nervos e os músculos exaustos. E então adormecia. No dia seguinte, porém, nesse mesmo cenário do seu quarto, com o leito de ferro de colegial, a mala de cânfora e a imagem da Senhora das Dores, sua madrinha, repreendendo-o benevolamente, repetir-se-iam os desmandos da sua imaginação. Mas era bom e fácil imaginar. Bastava estender os olhos pela avenida longa e agitada, pela Universidade que furava o céu tranquilo, pela noite vasta. Em qualquer parte e em qualquer instante encontraria o seu desconhecido. E ambos, então, com as mulheres de cabelos vaporosos e lábios roxos, iriam ao encontro dos ventos, dos sóis, do imprevisto.

In «Fogo na noite escura», romance de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1988 (14.ª edição).

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

«Eu sou Louis Pauwels e estou aqui neste momento», excerto de «O Despertar dos Mágicos»

Imagem encontrada em http://www.greatthoughtstreasury.com/
Peguem num relógio, diziam-nos, e olhem para o ponteiro grande tentando manter a consciência de vós próprios e concentrar-se neste pensamento: «Eu sou Louis Pauwels e estou aqui neste momento». Tente pensar apenas nisto, siga os movimentos do ponteiro grande mantendo a própria consciência do seu nome, da sua existência e do local onde se encontra.
Ao princípio, isto parecia simples e até um pouco ridículo. Evidentemente que posso manter presente no espírito a ideia de que me chamo Louis Pauwels e de que estou aqui, neste momento, a ver deslocar-se muito lentamente o ponteiro grande do meu relógio. Depois apercebo-me de que esta ideia não se mantém muito tempo imóvel em mim, que começa a tomar mil formas e a correr em todos os sentidos, como os objectos que Salvador Dali pintava, transformados em lama movediça. Mas tenho ainda de reconhecer que não me pedem que mantenha viva e fixa uma ideia, mas uma percepção. Não me pedem apenas que pense que existo, mas que o saiba, que tenha desse facto um conhecimento absoluto. Ora eu sinto que isso é possível e que poderia produzir-se em mim, trazendo-me qualquer coisa de novo e importante. Descubro que mil pensamentos ou sombras de pensamentos, mil sensações, imagens e associações de ideias perfeitamente estranhas ao objecto do meu esforço me assaltam sem cessar e me desviam do esforço que faço. Por vezes é o ponteiro que prende toda a minha atenção e, ao olhá-lo, perco-me de vista. Por vezes é o meu corpo, uma crispação da perna, um pequeno movimento na barriga que me faz deixar a agulha e ao mesmo tempo a minha própria pessoa. Por vezes ainda creio ter feito parar o meu pequeno cinema interior, eliminado o mundo exterior, mas apercebo-me então que acabo de mergulhar numa espécie de sono do qual o ponteiro desapareceu, do qual eu próprio desapareci e durante o qual as imagens continuam a sobrepor-se umas às outras, assim como as sensações, as ideias, como que atrás de um véu, como num sonho que se desbobina por sua conta enquanto eu durmo. Por vezes, finalmente, por uma fracção de segundo, sou eu próprio a olhar esse ponteiro, sou totalmente, completamente. Mas, na mesma fracção de segundo, felicito-me por o ter conseguido; se assim o posso dizer, o meu espírito aplaude, e imediatamente a minha inteligência, apossando-se da vitória para dela se congratular, compromete-a irremediavelmente. Finalmente, despeitado mas sobretudo esgotado, fujo à experiência com precipitação, pois parece-me que acabo de viver os minutos mais difíceis da minha existência, que acabo de ser privado de ar até ao limite da resistência. Como aquilo me pareceu longo! Ora não se passaram mais de dois minutos e, em dois minutos, só tive uma verdadeira percepção de mim próprio durante três ou quatro súbitas e imperceptíveis revelações.
http://www.dalipaintings.net/
Eu devia portanto admitir que nós quase nunca estamos conscientes de nós próprios e que quase nunca temos consciência da dificuldade de ser consciente.
O estado de consciência, diziam-nos, é antes de mais o estado do homem que sabe enfim que não está quase nunca consciente e que, portanto, aprende pouco a pouco quais são os obstáculos que se opõem, nele próprio, aos esforços que faz. À luz daquele pequenino exercício sabem agora que um homem pode ler uma obra, por exemplo, aprovar, aborrecer-se, protestar ou entusiasmar-se, sem ter a mínima consciência do facto, e portanto sem que nada da leitura se dirija verdadeiramente a ele próprio. A sua leitura é um sonho acrescentado aos seus próprios sonhos, um desbobinamento no perpétuo desbobinar do inconsciente. Pois a nossa verdadeira consciência pode estar – e está quase sempre – completamente ausente de tudo o que fazemos, pensamos, queremos, imaginamos.
Compreendo então que há muito pouca diferença entre o estado em que estamos durante o sono e aquele em que nos encontramos no estado de vigília vulgar, quando falamos, agimos, etc. Os nossos sonhos tornaram-se invisíveis, como as estrelas quando o dia nasce, mas continuam presentes e nós continuamos a viver sob a sua influência. Nós apenas adquirimos, após o despertar, uma atitude crítica para com as nossas próprias sensações, pensamentos mais ordenados, acções mais disciplinadas, maior vivacidade de impressão, de sentimentos, de desejos, mas continuamos na não-consciência. Não se trata do verdadeiro despertar, mas do «sono desperto», e é nesse estado de «sono desperto» que se desenrola toda a nossa vida. Ensinavam-nos que era possível despertarmos completamente, adquirir o estado de consciência de nós próprios. Nesse estado, como o entrevi durante o exercício com o relógio, era-me possível ter, a respeito do funcionamento do meu pensamento, do desenrolar das imagens, ideias e sensações, dos sentimentos e dos desejos, um conhecimento objectivo. Nesse estado, eu podia tentar e desenvolver um esforço real para examinar, suspender de tempos a tempos e alterar esse desenrolar. E esse próprio esforço, diziam-me, criava em mim uma certa subsistência. Esse próprio esforço não chegava aqui ou ali. Bastava-lhe ser para que se criasse e acumulasse em mim a própria subsistência do meu ser. Era-me dito que poderia então, possuindo um ser fixo, alcançar a «consciência objectiva» e ter assim, não apenas de mim próprio, mas dos outros homens, das coisas e do Mundo inteiro, um conhecimento totalmente objectivo, um conhecimento absoluto.

In «O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico», de Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1980 (11.ª edição).

[que é necessário para despertar um homem adormecido?], excerto de «O Despertar dos Mágicos»


Em regra geral, que é necessário para despertar um homem adormecido? É necessário um bom choque. Mas quando um homem está profundamente adormecido, um único choque não é suficiente. Um longo período de choques incessantes torna-se necessário. Por consequência, é preciso alguém para administrar esses choques. Eu já disse que o homem desejoso de despertar deve procurar o auxílio que se encarregará de o sacudir durante muito tempo. Mas quem pode ele procurar, se toda a gente dorme? Ele procura alguém que o desperte, mas esse também adormece em breve. Qual será a sua utilidade? Quanto ao homem realmente capaz de se manter desperto, recusará provavelmente perder o seu tempo a despertar os outros: pode ter trabalhos a fazer muito mais interessantes.
Há também a possibilidade de despertar por processos mecânicos. Pode usar-se um despertador. A desgraça quer que nos habituemos, depressa demais, seja a que despertador for: deixamos de o ouvir, muito simplesmente. São portanto necessários vários despertadores, com campainhas diferentes. O homem deve literalmente rodear-se de despertadores que o impeçam de dormir. E aqui surgem mais dificuldades. Os despertadores precisam de corda; para lhes dar corda é preciso lembrar-se; para nos lembrarmos é necessário acordar várias vezes. Mas eis o pior: um homem habitua-se a todos os despertadores e, após um certo tempo, ainda dorme melhor. Por consequência, os despertadores devem ser continuamente mudados, é necessário inventar constantemente novos. Com o tempo, isto pode auxiliar um homem a acordar. Ora, há muito poucas probabilidades de que ele faça todo esse trabalho de inventar, dar corda e mudar todos esses despertadores por si próprio, sem auxílio exterior. É muito mais provável que ao começar esse trabalho ele não tarde em adormecer e que, durante o sono, sonhará que inventa despertadores, que lhes dá corda, que os muda – e, como já disse, cada vez dormirá melhor.

In «O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico», de Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1980 (11.ª edição).

domingo, 20 de setembro de 2015

[o sinal de que qualquer coisa brilha algures], excerto de «O Despertar dos Mágicos», de Louis Pauwels e Jacques Bergier

Imagem encontrada em https://fuelfreemotos.wordpress.com
A nossa linguagem, assim como o nosso passado, procede do funcionamento aritmético, binário, do nosso cérebro. Nós classificamos em sim, não, positivo, negativo, estabelecemos as comparações e deduzimos. Se a linguagem nos serve para ordenar o nosso pensamento por sua vez inteiramente ocupado em organizar, é necessário verificar que ela não é um elemento criador exterior, um atributo divino. Ela não vem acrescentar um pensamento ao pensamento. Se eu falo ou escrevo, refreio a minha máquina. Não a posso descrever senão observando ao ralenti. Portanto apenas exprimo a minha tomada de consciência binária do mundo, e mesmo assim quando essa consciência cessa de funcionar à velocidade normal. A minha linguagem é apenas testemunho do ralenti de uma visão do mundo também limitada ao binário. Esta insuficiência da linguagem é evidente e intensamente ressentida. Mas que dizer da insuficiência da própria inteligência binária? A existência interna, a essência das coisas escapa-lhe. Pode descobrir que a luz é contínua e descontínua simultaneamente, que a molécula do benzeno estabelece entre os seus seis átomos relações duplas e no entanto mutuamente exclusivas; admite-o, mas não o pode compreender, não pode integrar ao seu próprio movimento a realidade das estruturas profundas que examina. Para o conseguir ser-lhe-ia necessário mudar de estado, seria preciso que outras máquinas diferentes das habitualmente usadas começassem a funcionar no cérebro, e que o raciocínio binário fosse substituído por uma consciência analógica que revestisse as formas e assimilasse os ritmos inconcebíveis dessas estruturas profundas. Talvez isso se produza, na intuição científica, na inspiração poética, no êxtase religioso e noutros casos que ignoramos. O recurso à consciência desperta, quer dizer, a um estado diferente do estado de vigília lúcida, é o leitmotiv de todas as antigas filosofias. É também o leitmotiv dos maiores físicos e matemáticos modernos, para quem «qualquer coisa se deve passar na consciência humana para que ela passe do saber ao conhecimento».
Não é portanto surpreendente que a linguagem, que não consegue senão testemunhar uma consciência do mundo em estado de vigília lúcida normal, seja obscura desde que se trate de exprimir essas estruturas profundas, quer se trate da luz, da eternidade, do tempo, da energia, da essência do homem, etc. No entanto, distinguimos duas espécies de obscuridade.
Uma provém de que a linguagem é o veículo de uma inteligência que se aplica a examinar essas estruturas sem nunca as poder assimilar. É o veículo de uma natureza que esbarra em vão com outra natureza. Quando muito, apenas traz o testemunho de uma impossibilidade, o eco de uma sensação de impotência e de exílio. A sua obscuridade é real. Trata-se apenas da obscuridade.
A outra provém do facto que o homem que tenta exprimir-se experimentou, por instantes, outro estado de consciência. Viveu por um momento na intimidade dessas estruturas profundas. Conheceu-as. É o místico do tipo São João da Cruz, o sábio iluminado do tipo Einstein ou o poeta inspirado do tipo William Blake, o matemático arrebatado do tipo Galois, o filósofo visionário do tipo Meyrink.
Depois da queda, o «vidente» é incapaz de comunicar. Mas a partir daí, ele exprime a certeza positiva de que o Universo seria controlável e manejável se o homem pudesse combinar tão intimamente quanto possível o estado de vigília e o estado de supervigília. Qualquer coisa de eficaz, o perfil de um instrumento soberano aparece em tal linguagem. Fulcanelli, ao falar do mistério das Catedrais, Wiener, ao falar da estrutura do Tempo, são obscuros, mas aqui a obscuridade não é a obscuridade: ela é o sinal de que qualquer coisa brilha algures.

In «O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico», de Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1980 (11.ª edição).

sábado, 19 de setembro de 2015

[Um pé de mesa não tem nada de positivo], excerto de «O Despertar dos Mágicos»

«Les Belles Réalités», pintura de René Magritte,1964

Ilhas de coral branco sobre um mar de um azul-escuro.
A sua aparência de distinção, a sua aparência de individualidade ou a indiferença positiva que os separa não são mais do que a projecção do mesmo fundo oceânico: a diferença entre terra e mar não é positiva. Em toda a porção de água há um pouco de terra, em toda a porção de terra há um pouco de água. De forma que todas as aparências são enganadoras. Visto que fazem parte de um espectro comum. Um pé de mesa não tem nada de positivo, não passa de uma projecção de qualquer coisa. E nenhum de nós é um ser, visto que psiquicamente somos contíguos daquilo que nos cerca, visto que psiquicamente nada nos acontece que não seja a expressão das nossas relações com tudo o que nos cerca.

In «O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico», de Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1980 (11.ª edição).

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

[Por que se dirige a uma árvore?], excerto de «O Despertar dos Mágicos»

Imagem encontrada em http://anabailune.blogspot.pt/
No seu discurso de recepção na Universidade de Oxford, em 1946, Jean Cocteau conta a seguinte anedota:
«O meu amigo Pobers, professor de uma cadeira de parapsicologia em Utreque, foi enviado em missão para as Antilhas, a fim de estudar o papel da telepatia, correntemente usada entre os selvagens. Se desejam corresponder-se com o marido ou o filho, na cidade, as mulheres dirigem-se a uma árvore e pai ou filho respondem ao que lhes é perguntado. Um dia em que Pobers assistia a este fenómeno e perguntava à camponesa por que motivo se servia de uma árvore, a sua resposta foi surpreendente e apta a resolver todo o problema moderno dos nossos instintos atrofiados pelas máquinas, nas quais o homem delega todo o esforço. Eis a pergunta: «Por que se dirige a uma árvore?» E eis a resposta: «Porque sou pobre. Se fosse rica, teria o telefone».
Certos electroencefalogramas de Yogis em êxtase apresentam curvas que não correspondem a nenhuma das actividades cerebrais conhecidas em estado de vigília ou de sono. Há muitos brancos com bonecos de fantasia sobre o mapa do espírito civilizado: precognições, intuição, telepatia, génio, etc. No dia em que a exploração destas regiões estiver realmente desenvolvida e se tiverem aberto pistas através de diversos estados de consciência ignorados pela nossa psicologia clássica, o estudo das civilizações antigas e dos povos considerados primitivos revelará talvez verdadeiras tecnologias e aspectos essenciais do conhecimento. A um centralismo cultural sucederá um relativismo que nos apresentará a história da humanidade sob uma luz nova e fantástica. O progresso não está em reforçar os parêntesis, mas em multiplicar os traços de união.

In «O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico», de Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1980 (11.ª edição).