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segunda-feira, 9 de junho de 2014

UM LEITOR NA FEIRA DO LIVRO, texto de José Tolentino Mendonça

Foto encontrada em http://www.snpcultura.org
Este ano a Feira do Livro de Lisboa chegou ao Parque antes dos Jacarandás. Passei por lá em duas ocasiões diferentes. Um sábado festivo, entre desvairadas gentes, com altifalantes e farturas. Mas, ainda assim, talvez uma tarde de alegria para os livreiros. Sentei-me numa plateia solitária a escutar os poemas magníficos do brasileiro Carlito Azevedo. E, num entardecer posterior, também por lá andei, tudo mais ascético e rarefeito, uma oportunidade para leitores compulsivos onde, por desgraça, me incluo.
O que é a literatura? O que a caracteriza não é o objeto que elege, nem a experiência ou o estatuto do autor enquanto tal, nem a receção individual ou social. O que caracteriza a obra literária é uma determinada relação com a linguagem, é o facto de transpor e transformar, mediante um sistema verbal, uma experiência humana, mais simples ou mais sofisticada, criando um universo próprio. Não se trata de discorrer, tematizar ou filosofar. Merleau-Ponty explica-o bem quando diz que o específico da literatura é colocar uma ideia «diante de nós, como uma coisa».
O mesmo entendimento encontramos em Michel Foucault, falando do poema: «No poema – diz ele –, já não tenho, de todo, a impressão de que a linguagem seja um signo, tenho a impressão de que a linguagem é um corpo. Tenho a impressão de que a linguagem já não é o signo (sinal, sintoma) de uma realidade qualquer, mas que ela mesma é um ser vivo. Passou-se alguma coisa no interior da linguagem que modificou radicalmente a sua natureza.»
A literatura tem a ver com este poder instaurador, ontológico. «Passou-se alguma coisa no interior da linguagem.» Esta não se reduz a elemento instrumental ou ilustrativo, no quadro de um sistema de comunicação. Ela não fala apenas de alguma coisa: ela é alguma coisa que se passa, um trânsito, um êxodo, no sentido em que escreve e reescreve, descreve e redesenha, demonstra e mostra.

In «O Hipopótamo de Deus – Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos», de José Tolentino Mendonça, Colecção Poéticas do Viver Crente (Série JTM), Paulinas Editora, Prior Velho, Outubro de 2013 (3.ª edição).

NOTA: O texto segue o AO90.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

[Era ali em frente, no jardim, que vários anos antes marcava encontro com Ophélia Queiroz], excerto de «Os três últimos dias de Fernando Pessoa», de Antonio Tabucchi



Imagem encontrada em http://www.passoslargos.pt
O carro passou diante da basílica da Estrela e ele olhou longamente a sua cúpula através do vidro. Era bonita, a basílica, com aquela enorme cúpula barroca e o frontão trabalhado. Era ali em frente, no jardim, que vários anos antes marcava encontro com Ophélia Queiroz, o seu único grande amor. No banco do jardim da Estrela trocavam beijos tímidos e solenes promessas de se amarem para sempre.
Mas a minha vida foi mais forte do que eu e do que o meu amor, murmurou Pessoa, perdoa-me, Ophélia, mas eu tinha de escrever, devia só escrever, não podia fazer mais nada, agora acabou.
O táxi passou em frente da Assembleia e depois seguiu pela Calçada do Combro. Em tempos tinha morado naquela esquina, vários anos antes, num quarto alugado. A proprietária era a Dona Maria das Virtudes, lembrava-se muito bem, era uma senhora de sessenta anos, de peito abundante e cabelos pintados de amarelo que o convidava à noite para beber a sua ginjinha e tomar parte em sessões de espiritismo. Entrava em contacto com o seu defunto marido, o marechal Pereira, e tinha longas conversas com ele sobre as guerras de África e o preço dos pimentos. Depois bebiam um cálice de ginjinha, comiam uma ginja e Pessoa despedia-se dizendo: Boa noite, Dona Maria das Virtudes, tenha bons sonhos. Retirava-se para o seu quarto. Naquelas noites entrava em contacto com Bernardo Soares e escrevia para ele O Livro do Desassossego. Levantava-se de madrugada para ver as gradações da luz sobre Lisboa e anotava-as num caderninho forrado a pele que a mãe lhe tinha mandado da África do Sul.
Quando chegaram à Rua Luz Soriano, foram mandados parar por um polícia.
Não podem passar, disse o polícia, a rua está ocupada por uma manifestação nacionalista, há uma banda e tudo, hoje a cidade está em festa.
O senhor Moitinho de Almeida debruçou-se na janela.
Eu sou o Dr. Moitinho de Almeida, disse ele com autoridade, temos de ir para o hospital de S. Luís dos Franceses, levamos aqui um doente.
O polícia tirou o boné e coçou a cabeça.
Oiça, senhor, disse ele, vão fazer um pequeno desvio, é um sentido proibido, mas neste caso podem passar, voltem à direita, depois à esquerda e estão no Bairro Alto.
Pessoa sorriu porque o tinha reconhecido. Era Coelho Pacheco, um seu heterónimo raro, alguém que só tinha feito poesia uma vez e o que escrevera era sombrio e visionário, de estilo neogótico. O que é que Coelho Pacheco faria ali, vestido de polícia? Talvez o Mestre o tivesse enviado para lhe preparar o caminho que devia seguir. Pessoa levantou a mão e fez-lhe um sinal esotérico. Coelho Pacheco fez-lhe também um sinal esotérico e o táxi tomou a primeira rua à direita.

In «Os três últimos dias de Fernando Pessoa. Um delírio», de Antonio Tabucchi (com tradução de Maria da Piedade Ferreira), Quetzal Editores, Lisboa, Fevereiro de 1999 (4.ª edição).

[Mas ele conhecia as palavras obscuras que davam nome ao que se aproximava], excerto de «A morte em Veneza», de Thomas Mann


Imagem encontrada em http://wikimapia.org/
Nessa mesma noite teve um sonho terrível – mas talvez não se possa designar como um sonho uma experiência física e espiritual, de facto ocorrida durante um sono profundo e com completa autonomia e presença dos sentidos, mas sem que ele se visse como um elemento extrínseco e vagueante dos acontecimentos no espaço, que na verdade tomavam como arena a sua própria alma e se impunham vindos de fora, derrubando despoticamente a sua resistência – uma profunda resistência do espírito – atravessando-o, deixando para trás os despojos devastados e aniquilados da sua existência, da cultura da sua vida.
Começou por ter medo, medo e prazer e uma curiosidade pelo que iria acontecer. Era noite e os seus sentidos estavam alerta; pois de longe aproximava-se um tumulto, um estrondo, um rumor indistinto; gritos, cânticos e trovões abafados, uivos estridentes de júbilo e um bramido muito preciso com um u arrastado – e todos eram penetrados e dominados pela melodia de uma flauta perversamente insistente que lhe enfeitiçava as entranhas. Mas ele conhecia as palavras obscuras que davam nome ao que se aproximava: «O deus estrangeiro!» Descerrou-se a cortina ardente de fumo: reconheceu então montanhas semelhantes às que rodeavam a sua casa de Verão. E sob uma luz rasgada, por entre florestas e troncos e penhascos cobertos de musgo, desmoronaram-se, caíram em remoinho homens, mulheres e animais, uma multidão enraivecida – e as encostas foram inundadas com corpos, chamas, tumulto e uma dança em roda vertiginosa. Tropeçando nas peles de animais que lhes pendiam dos cintos, as mulheres agitavam pandeiretas entre gemidos sobre as cabeças lançadas para trás, brandiam tochas e punhais nus, traziam serpentes sibilantes enroladas no ventre, agarravam entre gritos o peito com as duas mãos. Homens com chifres, os corpos peludos tapados por peles, baixavam as nucas e erguiam os braços e as coxas, faziam ressoar pratos de bronze, batiam timbales furiosos, enquanto rapazes imberbes picavam bodes com ramos engrinaldados, agarrando-os pelos cornos e deixando-se arrastar exultantes pelos seus coices. E os entusiasmados repetiam o chamamento de consoantes suaves com um u final arrastado, doce e selvagem ao mesmo tempo, um som nunca antes ouvido: – mas aqui ressoava ele, lançado ao ar como o bramido de um veado, e era ali ecoado por muitas vozes; em triunfo devastador, espicaçando todos à dança, ao frémito dos corpos, não se calando nunca. Mas o som grave, sedutor, da flauta tudo penetrava e dominava. Não o seduzia a ele também, apesar da sua distância, chamando-o, desavergonhado e premente, para o festim, para o excesso do sacrifício maior? Grande era a sua abominação, grande o medo, ardente a vontade de se proteger do deus estranho e inimigo do espírito digno e contido. Mas o clamor crescia, os uivos replicados pelo eco das montanhas ensurdeciam, intumesciam em demência arrebatadora. A sua consciência era invadida por odores; o cheiro ácido dos bodes, o cheiro dos corpos arfantes, um hálito como o de águas salobras, e um outro ainda, familiar: a feridas e a doença. O seu coração vibrava com os batimentos dos timbales, o seu cérebro gravitava, foi acometido de ira, desvairamento, aturdido pela volúpia, e a sua alma ansiava juntar-se ao cortejo do deus. O símbolo de madeira, obsceno, enorme, foi descoberto e elevado: e todos bramaram, desenfreados, a invocação. Com espuma a correr dos lábios, vociferavam, provocavam-se com gestos lascivos e mãos ávidas, enterravam os punhais na carne e lambiam o sangue dos membros mutilados. Mas no seu sonho estava já com eles, estava neles, um outro súbdito do deus estrangeiro. E estava neles também quando se atiraram aos animais, os rasgaram, os dilaceraram, e quando, sobre o chão musgoso, se sacrificaram ao deus em coito desenfreado. E a sua alma provou a volúpia e o delírio da queda.

In «A morte em Veneza», de Thomas Mann (tradução de Isabel Castro Silva e revisão técnica de Helder Guégués), Colecção «Ficções» (n.º 21), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Junho de 2004 (1.ª edição).

[Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa], excerto de «A morte em Veneza», de Thomas Mann

Thomas Mann
Céu, terra e mar jaziam ainda numa palidez crepuscular, vítrea, imaterial; uma estrela perdida nadava na ausência de ser. Mas chegou um sopro de lugares longínquos, uma nova alada, e dizia que Eos se levantara do leito do esposo, e veio então o primeiro e doce enrubescer das linhas mais distantes do mar e do céu com que a criação se anuncia aos sentidos. A deusa aproximava-se, ela que raptara Clito e Céfalo e gozava agora o amor do belo Oríon, desafiando a inveja dos deuses no Olimpo. Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa, um brilho e florescer de graça indizível, nuvens infantis, banhadas de luz e transparentes, flutuavam no ar azulado e rosa como pequenos amoretti, caía púrpura sobre o mar e era espalhada pelas ondas, lanças de ouro rasgavam o ar à altura do céu, o brilho tornou-se fogo, em silêncio, com violência divina desmedida, brilho e ardor e labaredas voluteavam, e com cascos impacientes os corcéis sagrados de Apolo levantaram da esfera da Terra. Iluminado pelo esplendor do deus, o homem em vigília solitária fechou os olhos e deixou que as suas pálpebras fossem beijadas pela glória. Com um sorriso confuso, perplexo, reconheceu sentimentos passados, tormentos preciosos e prematuros do coração, que haviam perecido no ofício rígido da sua vida e que agora regressavam surpreendentemente transfigurados. Ansiava, sonhava, os seus lábios formaram lentamente um nome, e sorrindo sempre, a face virada para a frente, as mãos cruzadas no colo, adormeceu novamente na cadeira.

In «A morte em Veneza», de Thomas Mann (tradução de Isabel Castro Silva e revisão técnica de Helder Guégués), Colecção «Ficções» (n.º 21), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Junho de 2004 (1.ª edição).