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Os dias sucedem-se iguais, uns atrás dos outros, e a rotina infiltra-se na carne como música nas orelhas. O Verão deixa entrar o Outono na sua casa; e este, o Inverno; e a diplomacia das estações sucede-se.
Rosa
corre pela chuva e chega à casa de Santos & Santos. Com a roupa molhada,
tira, com alguma dificuldade, as chaves de uma mala demasiado cheia e abre a
porta da rua. Fecha o guarda-chuva, sacode-o e encosta-o à parede, e depois
tira o lenço que traz na cabeça e sacode o cabelo como fazem os cães molhados.
Passa os sapatos pelo tapete e dirige-se à cozinha, mas pára porque ouve um
grito. Vira-se, avermelhada, pois aquela voz é terrível. Dona Clotilde é
responsável por todas as empregadas da casa. Cita filósofos alemães enquanto
aspira. Gosta de Kant, apesar de dizer: aquilo não era um filósofo, era um
relógio. Uma pessoa pode saber que horas são só por pensar como ele. Rosa ouve-a
com paciência, engole os seus gritos de desespero pelo corredor que, acabado de
limpar, está novamente sujo, com lama. No meio dos gritos ouve citações de
Heidegger e até já sabe uma ou outra frase de Ser e Tempo e outras higienes. Dona Clotilde enviuvou ainda
relativamente nova, não tinha mais de quarenta anos, mas deixou-se entristecer
eternamente sem outro consolo que não a limpeza do mundo. Tem propriedades em
Lisboa e não precisa de trabalhar, mas vê a limpeza como uma missão: quer
limpar o mundo. E não há nada melhor do que o chão, pois é aí que o mundo
começa. No fundo, dona Clotilde sente-se um símbolo, alguém que limpa a parte
mais baixa de todas, aquilo que está ainda mais baixa do que os nossos pés,
limpa aquilo que pisamos.
A
lama é uma ofensa tremenda à civilização, e o carácter de dona Clotilde jamais
permitiria a barbárie espalhada pelos patamares de mármore e corrimãos e flores
de plástico. São milhares de anos de sociedades sedentárias, para depois andarmos
a pisar toda a nossa História com sapatos sujos. Rosa suspira e recua para a
entrada para voltar a limpar os pés, mas isso ainda irrita mais dona Clotilde.
Está a fazer pior ao chão, na perspectiva de poupar o resto do corredor. O
raciocínio pode ser correcto, mas ver aquele espaço da entrada a encher-se de
sujidade é algo que dona Clotilde é incapaz de tolerar. A sua cara ruboriza-se
e chega a levantar a mão, um gesto de que prontamente se arrepende. Por isso
disfarça e transforma o seu movimento numa palmadinha nas costas de Rosa.
–
Muito bem – diz ela. – Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?
In «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz, Penguin
Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. (chancela da Alfaguara), Lisboa,
Novembro de 2015 (1.ª edição).
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