Yasunary
Kawabata – Fotografia retirada de http://japandailypress.com
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O universo mais desumano tornava-se humano à força de hábito. Mil depravações estão escondidas nas sombras deste mundo. Somente Eguchi diferia um pouco dos velhos que frequentavam aquela casa. Poder-se-ia mesmo dizer que ele diferia completamente. O velho Kiga, que o tinha lá introduzido, tinha-se enganado acerca dele, julgando que se encontrava no estado de todos eles, porque Eguchi ainda não perdera a sua virilidade. Por conseguinte, era de presumir que ele não podia compreender nem a verdadeira tristeza, nem as alegrias, nem as saudades nem a solidão que sentiam os velhos que frequentavam aquela casa. Para ele não era de maneira alguma indispensável que a rapariga estivesse a dormir de tal forma que não pudesse acordar em nenhuma circunstância.
Logo
na sua segunda visita, por exemplo, estivera quase, com a rapariga provocante,
a infringir as interdições da casa e apenas a surpresa de a encontrar virgem
tinha feito com que se retirasse. Depois disso tinha jurado respeitar as regras
da casa, ou melhor, a tranquilidade das «Belas Adormecidas». Tinha jurado não
quebrar o segredo dos velhotes. E, contudo, a que preocupações podia
corresponder o facto de, naquela casa, não se pedir colaboração senão a
raparigas virgens? Seria para responder a um desejo, que poderíamos chamar
piedoso, dos velhos? Eguchi julgava compreender aquilo, ao mesmo tempo que lhe
parecia estúpido.
Contudo,
a rapariga daquela noite era bizarra. O velho nem queria acreditar. Soergueu o
busto, apoiou o peito no ombro da rapariga e contemplou-lhe o rosto. Como todo
o seu corpo, o rosto da rapariga era irregular. E contudo, contrariando as
expectativas, era ingénuo. A base do nariz era um pouco achatada e a parte
superior baixa. As faces eram redondas e largas. Os cabelos desciam até um
ponto bastante baixo da testa, formando um bico. Os sobrolhos curtos eram
crespos e vulgares.
«Ela
é graciosa!», murmurou o velho, apoiando a face contra a face da rapariga. Também
esta era lisa. Sob o peso que se comprimia sobre o seu ombro, a rapariga
virou-se de barriga para o ar. Eguchi afastou-se.
O
velho ficou um momento com os olhos fechados. Isso devia-se também ao facto de
o odor da rapariga ser extraordinariamente denso. Sabe-se que nada é mais propício
a evocar as recordações do passado que os odores, mas aquele era particularmente
adocicado e espesso. Não evocava mais nada a não ser o cheiro leitoso de um bebé
ao peito. Os dois odores diferiam em tudo. Mas não eram, por outro lado, os odores
fundamentais da espécie humana? Sempre tinham existido velhos que procuravam
fazer do odor que emanam as rapariguinhas uma droga de rejuvenescimento e de
longevidade. Dava vontade de perguntar se o odor daquela rapariga não era um
perfume dessa natureza. Se o velho Eguchi se atrevesse a infringir em relação àquela
rapariga as interdições daquela casa, ela espalharia um odor odioso e acre.
Contudo, se ele pensava assim, não era isso sinal de que estava já demasiado
velho? Um odor intenso e acre como o daquela rapariga não seria, também, o que
estava na origem do nascimento do ser humano? Era uma rapariga que devia
conceber com muita facilidade. Por mais profundamente adormecida que estivesse,
os processos fisiológicos não eram interrompidos e no dia seguinte acabaria por
acordar. Supondo que ela concebia, isso ficava completamente ao seu arbítrio.
Que se passaria se o velho Eguchi, aos sessenta e sete anos, deixasse no mundo
um filho concebido dessa forma? O que conduz o homem ao «mundo dos demónios» é
mesmo, ao que parece, o corpo da mulher.
Contudo,
a rapariga tinha sido privada de toda e qualquer resistência. Em proveito dos
seus velhos clientes, em proveito de lamentáveis velhos. Não tinha qualquer
roupa sobre o corpo e não despertaria em circunstância alguma. Eguchi sentia-se
desgraçado como se estivesse doente do coração e surpreendeu-se a murmurar: «Ao
velho a morte, ao jovem o amor, a morte uma só vez, o amor não sei quantas
vezes!» Tinha sido apanhado de surpresa, mas aquilo apaziguou-o. Não estava na
sua natureza ser enfático até àquele ponto. Lá fora ouvia-se o tombar da neve misturada
com a chuva. O barulho do mar parecia ter sido abafado. A visão de um mar vasto
e sombrio onde os flocos de neve se dissolviam quando tombavam, deparou-se ao
velho. Uma ave de rapina semelhante a uma águia imensa, segurando no bico uma
coisa meia devorada e sangrenta, volteava sobre as negras vagas que rasava com
as asas. Seria essa coisa um bebé? Era muito improvável. Vendo mais de perto,
seria aquela a imagem das depravações humanas? Eguchi sacudiu levemente a
cabeça e dissipou a visão.
In «A Casa das Belas Adormecidas», de Yasunary Kawabata (com Introdução de
Yukio Mishima e tradução de Luís Pignatelli), Colecção «O imaginário» (n.º 11),
Assírio & Alvim, Maio de 1986 (1.ª edição).
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